Thaumastus teixeirensis: nova espécie descrita — e já extinta — em sambaqui do Paraná

Publicado em outubro de 2025 nos Papéis Avulsos de Zoologia, o trabalho de Luiz Ricardo L. Simone, Marcos de Vasconcellos Gernet e Fabiano Pinheiro traz uma das descrições mais comoventes da malacologia brasileira recente: uma nova espécie de caracol terrestre que, no momento mesmo em que recebe nome científico, já é declarada provavelmente extinta. Thaumastus teixeirensis é conhecida exclusivamente a partir de conchas antigas acumuladas em um sambaqui na Ilha do Teixeira, dentro da Baía de Paranaguá, litoral do Paraná.

A publicação ilustra de forma eloquente o valor duplo dos sambaquis — esses monumentos arqueológicos construídos por populações pré-históricas caçadoras-pescadoras-coletoras ao longo da costa brasileira, compostos majoritariamente por conchas de moluscos. Além de seu óbvio interesse arqueológico, os sambaquis funcionam como arquivos biológicos: ao analisar as conchas neles preservadas, pesquisadores acessam composições malacofaunísticas do passado que, em muitos casos, já não correspondem à fauna atual do mesmo lugar.

“Esforços para encontrar espécimes vivos similares, ou mesmo conchas vazias recentes, naquela região foram infrutíferos, sugerindo fortemente que a espécie está atualmente extinta.” — Simone, Gernet & Pinheiro, 2025

O gênero Thaumastus e sua diversidade brasileira

O gênero Thaumastus Martens, 1860 pertence à família Megaspiridae (Orthalicoidea) e é exclusivo da América do Sul, contando atualmente com 38 espécies descritas segundo o MolluscaBase (2024). Dessas, 18 ocorrem em território brasileiro, segundo os inventários de Simone (2006) e Birckolz e colaboradores (2016). A espécie-tipo do gênero é Bulimus hartwegi Pfeiffer, 1846, por designação original.

As espécies de Thaumastus são tradicionalmente reconhecidas pelo porte avantajado e pela concha fusiforme com espira longa e protoconcha larga e estriada. A novidade de 2025 rompe com esse perfil típico de forma marcante: a concha de T. teixeirensis é pequena, cônica, de espira curta e aparência proporcionalmente atarracada — um conjunto que, entre os congêneres, não tem equivalente.

A descoberta em Sambaqui da Chegada

O material-tipo foi coletado em 20 de junho de 2022 por Marcos Gernet e Fabiano Pinheiro no Sambaqui da Chegada, pequeno sítio arqueológico localizado na enseada interna da Ilha do Teixeira, quase em frente aos píeres de desembarque. O nome local do sambaqui é irônico em retrospecto: o lugar onde os pesquisadores “chegaram” a esta espécie também marca sua despedida. Em razão da intensa circulação de pessoas e do recente calçamento em cimento do local, o sítio foi completamente destruído logo após a coleta — de modo que o próprio contexto arqueológico da descoberta já não existe mais.

A Ilha do Teixeira, com seus 1,47 km² de extensão, fica na enseada do Guarapirocaba, dentro da Baía de Paranaguá, e homenageia Francisco Teixeira, antigo proprietário agrícola da área. Estudos em andamento têm revelado que a ilha abriga diversas espécies endêmicas vivas de caracóis terrestres — o que dá plausibilidade ecológica à hipótese de que T. teixeirensis também seria endêmica local. Apenas que, diferente das outras, não sobreviveu até o presente.

Ficha de Thaumastus teixeirensis

Dados da espécie
Nome científicoThaumastus teixeirensis Simone, Gernet & Pinheiro, 2025
FamíliaMegaspiridae (Orthalicoidea, Eupulmonata)
EtimologiaO epíteto específico deriva da localidade de ocorrência: Ilha do Teixeira.
Localidade-tipoSambaqui da Ilha do Teixeira (“Sambaqui da Chegada”), Ilha do Teixeira, Baía de Paranaguá, Paraná, Brasil (25°29’59,88″S, 48°38’38,73″W).
HolótipoMZSP 166000 — concha completa de 46,0 mm × 22,4 mm. Coletada por M. V. Gernet & F. Pinheiro em 20.vi.2022.
ParátiposMZSP 167077 — duas conchas fragmentárias e três conchas praticamente completas, mesma localidade-tipo.
HabitatConhecida apenas de sambaqui (sítio arqueológico). A espécie viva não foi encontrada.
DistribuiçãoConhecida exclusivamente da localidade-tipo, na Ilha do Teixeira.
Status de conservaçãoProvavelmente extinta. Nenhum espécime vivo ou concha recente foi localizado na ilha ou entorno.
BiomaFloresta Ombrófila Densa de Terras Baixas (Mata Atlântica), segundo classificação do IBGE (1992).
ZooBank LSIDurn:lsid:zoobank.org:act:718D3070-9F14-4765-AFCB-827207801BED

Morfologia: o que distingue T. teixeirensis

A concha de T. teixeirensis tem contorno oval e comprimento aproximado de 46 mm no holótipo, com espira representando cerca de 54% do comprimento total — proporção radicalmente diferente da de quase todos os outros congêneres, em que a espira supera 1,5 vez o comprimento da última volta. Em T. teixeirensis, espira e última volta têm proporções quase idênticas, o que confere à concha seu aspecto mais cônico-atarracado do que fusiforme.

A protoconcha é relativamente obtusa, composta por cerca de três voltas, com a primeira em forma de domo e as demais aumentando fracamente, com sutura rasa; toda sua superfície é ornamentada por estrias axiais densas e uniformes. O limite com a teleoconcha é nítido e levemente prosóclino (cerca de 15° em relação ao eixo longitudinal da concha). A coloração da teleoconcha combina bandas axiais marrom-avermelhadas de largura irregular, uma estreita faixa perisutural branca e uma faixa espiral branca na última volta que interrompe as bandas axiais.

Outros caracteres diagnósticos incluem: peristoma elíptico representando cerca de 45% do comprimento da concha e 60% da largura; lábio externo defletido, arredondado e simples; lábio interno côncavo na porção média, com calo espesso que não ultrapassa o peristoma; dobra columelar oblíqua entre as metades superior e inferior do lábio interno; e umbílico aberto, porém estreito.

Sambaquis como arquivos da biodiversidade

A descrição de T. teixeirensis reforça o papel dos sambaquis como repositórios insubstituíveis de informação biológica histórica. Trabalhos anteriores já haviam mostrado esse potencial: Souza e colaboradores (2010) investigaram moluscos marinhos do Sambaqui da Tarioba (Rio das Ostras, RJ); Rodrigues e colaboradores (2011) fizeram estudo equivalente nos sambaquis do Momuna (Iguape, SP); Fontenelle, Cavallari & Simone (2014) descreveram uma nova espécie de Megalobulimus a partir de material de sambaquis brasileiros; e Gernet e colaboradores (2019, 2020) documentaram a malacofauna de sambaquis paranaenses, incluindo o registro do odontostomídeo Macrodontes paulistus na própria Ilha do Teixeira.

O caso de T. teixeirensis eleva o alerta a outro patamar. Não se trata apenas de uma espécie rara ou pouco estudada: é uma espécie que só existe como registro arqueológico. O desaparecimento, ocorrido em algum momento entre a constituição do sambaqui e o presente, pode ter sido causado por alterações ambientais pós-colonização europeia, perda de habitat, predação por espécies introduzidas ou alguma combinação desses fatores. Sem material vivo, essa causa provavelmente nunca será determinada.

Uma coleta-resgate no limite do possível

Vale também sublinhar o caráter de resgate da coleta. Os autores informam que o sambaqui em questão foi completamente destruído pelo calçamento em cimento que ligou os píeres ao interior da ilha pouco depois do trabalho de campo. Isto significa que, sem a presença oportuna dos pesquisadores em junho de 2022, o único testemunho material da existência de T. teixeirensis teria sido soterrado ou disperso junto com o sítio. O trabalho exemplifica, de forma dolorosa, por que sambaquis devem ser tratados como patrimônio arqueológico-biológico integrado — e por que prospecções malacológicas em áreas costeiras sob pressão urbanística são urgentes.

Perguntas Frequentes

O que é um sambaqui?

Sambaquis são sítios arqueológicos formados pelo acúmulo intencional de conchas de moluscos (além de ossos, carvão e outros restos) por populações pré-históricas caçadoras-pescadoras-coletoras do litoral sul-americano. No Brasil, são especialmente comuns nas regiões Sudeste e Sul, sobretudo em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e podem alcançar datações de mais de 7 mil anos antes do presente.

Como é possível descrever uma espécie nova que já está extinta?

As regras do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica permitem que descrições baseadas apenas em material fóssil, subfóssil ou arqueológico sejam válidas, desde que o holótipo seja preservado em coleção científica e a descrição atenda aos requisitos formais. A concha de gastrópode é um caráter diagnóstico confiável, e o material depositado no Museu de Zoologia da USP (MZSP) garante a rastreabilidade científica da espécie, mesmo que espécimes vivos nunca venham a ser encontrados.

Qual a idade das conchas encontradas?

O artigo não apresenta datação radiocarbônica específica das conchas. Sambaquis paranaenses em geral têm idades que variam de cerca de 1.000 a mais de 6.000 anos antes do presente, mas apenas uma datação direta do material associado a T. teixeirensis permitiria saber quando a espécie efetivamente deixou de existir.

A espécie pode ainda ser encontrada viva em algum lugar?

Os autores consideram improvável, mas não impossível. Após prospecções na Ilha do Teixeira e áreas vizinhas, nenhum espécime vivo ou concha recente foi localizado. A presença de outros endemismos vivos na ilha sugere que T. teixeirensis também seria endêmica local, o que reforça a hipótese de extinção. Ainda assim, pesquisas futuras em fragmentos de Mata Atlântica preservados no litoral paranaense poderiam, em tese, revelar populações remanescentes.

O que torna a morfologia de T. teixeirensis atípica dentro do gênero?

A maioria das espécies de Thaumastus tem concha fusiforme com espira muito alongada, superior a 1,5 vez o comprimento da última volta. Em T. teixeirensis, espira e última volta têm proporções quase iguais, resultando em um perfil cônico curto e atarracado. O ápice também é obtuso, característica incomum no gênero.

Por que o sítio arqueológico foi destruído?

Segundo o artigo, o Sambaqui da Chegada estava localizado em área de intensa circulação, próximo aos ancoradouros da ilha. Uma calçada de cimento foi construída recentemente no local, destruindo completamente o sítio. A coleta-tipo, realizada em junho de 2022, precedeu essa destruição — caso contrário, o material nunca teria sido documentado cientificamente.

Referência

Simone L. R. L., Gernet M. V. & Pinheiro F. 2025. — A new and already extinct Thaumastus from shell mounds (sambaquis) in Paraná, Brazil (Mollusca, Eupulmonata, Orthalicoidea). Papéis Avulsos de Zoologia 65: e202565038. DOI: https://doi.org/10.11606/1807-0205/2025.65.038

Referências complementares citadas

Birckolz C. J., Salvador R. B., Cavallari D. C. & Simone L. R. L. 2016. — Illustrated checklist of newly described (2006–2016) land and freshwater Gastropoda from Brazil. Archiv für Molluskenkunde 145: 133–150. DOI: https://doi.org/10.1127/arch.moll/145/133-150

Fontenelle J. H., Cavallari D. C. & Simone L. R. L. 2014. — A new species of Megalobulimus (Gastropoda, Strophocheilidae) from Brazilian shell mounds. Strombus 21: 30–37.

Gernet M. V. & Birckolz C. J. 2011. — Fauna malacológica em dois sambaquis do litoral do Estado do Paraná, Brasil. Biotemas 24: 39–49. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7925.2011v24n3p39

Gernet M. V., Belz C. E., Pinheiro F. & Birckolz C. J. 2020. — Registro de Macrodontes paulistus (Gastropoda: Odontostomidae) em um sambaqui na Ilha do Teixeira, baía de Paranaguá, sul do Brasil. Pesquisa e Ensino em Ciências Exatas e da Natureza 4: 1–4. DOI: https://doi.org/10.29215/pecen.v4i0.1480

Simone L. R. L. 2006. — Land and freshwater molluscs of Brazil. EGB/FAPESP, São Paulo, 390 p.


Conquiliologistas do Brasil · Malacologia em Dia
Divulgação científica sobre moluscos brasileiros e sul-americanos

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