Revisão global documenta a devastação da fauna de moluscos terrestres em ilhas oceânicas
Um extenso artigo de revisão publicado em 2026 nos Philosophical Transactions of the Royal Society B — uma das revistas científicas mais prestigiosas do mundo — apresenta um panorama global sobre a extinção de gastrópodes terrestres em ilhas oceânicas. Os autores, Robert H. Cowie (Universidade do Havaí), Philippe Bouchet e Benoit Fontaine (Muséum National d’Histoire Naturelle, Paris), demonstram que os moluscos terrestres insulares constituem o grupo animal com as maiores taxas de extinção documentadas no planeta.
O trabalho integra o número temático “A Biosfera no Antropoceno” e sintetiza décadas de pesquisa sobre a perda de biodiversidade malacológica em ilhas do Pacífico, Atlântico e Oceano Índico.
A escala da crise
Os números apresentados pelos autores são contundentes. De acordo com a IUCN, dos 3.662 gastrópodes terrestres avaliados, 184 (5%) estão listados como extintos e 1.124 (31%) como ameaçados. Para efeito de comparação, entre as aves — grupo com 100% das espécies avaliadas —, apenas 1,5% estão listadas como extintas e 12% como ameaçadas. Moluscos terrestres apresentam, portanto, uma taxa de extinção proporcionalmente muito mais alta que a de qualquer outro grande grupo animal avaliado.
Além disso, os autores apontam que os números oficiais subestimam a realidade: especialistas consideram que pelo menos 1.032 espécies de moluscos estão extintas, possivelmente extintas ou extintas na natureza — mais do que o dobro do reconhecido pela IUCN.
| Extinções comparadas entre grupos animais (IUCN) | |||
| 5,0% Gastrópodes terrestres extintos (dos avaliados) |
1,5% Aves extintas |
1,4% Mamíferos extintos |
0,4% Insetos extintos |
Aproximadamente 70% das extinções de moluscos são de espécies insulares, quase exclusivamente gastrópodes terrestres, com a maior concentração no Pacífico.
Causas de extinção
O artigo organiza as causas de extinção em duas grandes categorias — naturais e antropogênicas — e analisa exemplos de ilhas e arquipélagos em todo o mundo.
Causas naturais
Mudanças climáticas do Pleistoceno e flutuações do nível do mar causaram extinções anteriores à chegada humana em diversas ilhas. Depósitos de dunas litificadas (eolianitos) preservam faunas fósseis ricas — como os 21 gêneros extintos de Carelia (Amastridae) no Havaí e as espécies de Poecilozonites nas Bermudas, onde das 11 espécies conhecidas, apenas 2 sobrevivem hoje.
Eventos geológicos também causaram extinções pontuais, como a erupção de Santorini (~1500 a.C.), que provavelmente eliminou o endêmico Zonites santoriniensis, e a explosão do Krakatoa em 1883, que destruiu toda a fauna malacológica da ilha.
Perda de habitat
O desmatamento é identificado como a causa primária e mais antiga de extinção de moluscos insulares, frequentemente agravada pela introdução de herbívoros (cabras, porcos, gado, ovelhas) que destroem a vegetação nativa sem predar diretamente os moluscos.
| Ilha / Arquipélago | Espécies nativas | Extintas | Contexto |
|---|---|---|---|
| Havaí | ≈ 750 | centenas | Desmatamento, ungulados ferais, urbanização; família Amastridae (325 spp.) quase totalmente extinta (<10% sobrevivem). |
| Ilhas Mascarenhas (Maurício) | 125 | 43 | Desmatamento colonial (séc. XVII–XIX). 36 endêmicas extintas. |
| Rapa (Ilhas Austrais) | ≈ 100 endêmicas | muitas | Apenas 13% da cobertura florestal remanescente em 40 km² de ilha. |
| Santa Helena (Atlântico Sul) | 27 endêmicas | 25 | Destruição quase total da vegetação nativa por cabras (séc. XVI) e colonos ingleses (séc. XVII). Apenas 2 endêmicas sobrevivem. |
| Jamaica | 560+ (90% endêmicas) | ~10% | Menos de 15% da floresta original. Caramujos arbóreos (Anoma spp.) os mais ameaçados. |
| Madeira e Porto Santo | diversas | >30% da fauna fóssil | Desmatamento após colonização europeia (1419–1420). |
Espécies invasoras predadoras
Os autores dedicam atenção especial às introduções deliberadas de predadores para “controle biológico” do caramujo-gigante-africano (Lissachatina fulica) — programas que constituem um dos maiores desastres documentados da história do controle biológico.
Euglandina spp. (Spiraxidae) — caramujo predador neotropical, introduzido a partir de 1955 no Havaí e depois em dezenas de ilhas do Pacífico. Em vez de controlar L. fulica, predou massivamente os caramujos arbóreos endêmicos de reprodução lenta (Partulidae, Achatinellinae), levando à extinção de dezenas — provavelmente centenas — de espécies de distribuição restrita. Nas Ilhas da Sociedade (Polinésia Francesa), quase todas as espécies de Partula foram eliminadas na natureza.
Platydemus manokwari (Geoplanidae) — planária predadora originária da Nova Guiné, também introduzida deliberadamente ou acidentalmente em diversas ilhas. Nas Ilhas Ogasawara (Japão), eliminou quase toda a fauna malacológica da ilha principal, Chichijima.
Ratos (Rattus rattus, R. norvegicus, R. exulans) — predadores de moluscos em praticamente todas as ilhas onde foram introduzidos. R. rattus é especialmente danoso aos caramujos arbóreos endêmicos do Havaí.
Coleta e uso ornamental
A coleta excessiva impactou populações de espécies maiores e mais coloridas. Exemplos notáveis incluem os Achatinellinae havaianos (milhares coletados em poucas horas nos séculos XIX e XX), Eua zebrina (conchas usadas em lustres de hotéis em Samoa Americana) e as espetaculares Polymita spp. de Cuba — talvez os caramujos terrestres mais coloridos do mundo —, cujas conchas são comercializadas ilegalmente para colares e artesanato, apesar de listagem no CITES Apêndice I.
Mudanças climáticas
Notavelmente, os autores concluem que as mudanças climáticas antropogênicas não foram documentadas como causa direta de nenhuma extinção de gastrópode terrestre até o momento. A única espécie considerada extinta por essa causa, Rhachistia aldabrae (Aldabra), foi subsequentemente redescoberta viva.
Programas de conservação
Apesar do cenário sombrio, o artigo documenta programas de conservação ex situ (criação em cativeiro) que representam esperança para algumas espécies:
| Programa | Espécies | Resultados |
|---|---|---|
| Partula spp. — Polinésia Francesa | Partulidae (14 espécies) | 15 zoológicos em 5 países; mais de 30.000 indivíduos reintroduzidos nas Ilhas da Sociedade desde 2016. |
| SEPP — Havaí | Achatinellinae, Amastridae e outros (40+ espécies) | Programa estatal com 3 instalações; 14 cercados anti-predadores em Oahu, Maui e Lanai; cão treinado para detectar Euglandina. |
| Poecilozonites — Bermudas | 2 espécies endêmicas | Criação no Chester Zoo (UK); mais de 111.000 indivíduos reintroduzidos em 20+ sítios nas Bermudas desde 2023. |
| Ilhas Desertas — Madeira | 4 espécies endêmicas | Chester Zoo e ZooParc de Beauval (França); primeiras liberações em 2024 na ilha de Bugio, após remoção de cabras e ratos. |
| Mandarina — Ogasawara (Japão) | Gênero endêmico | Instalação de criação construída em Chichijima após reconhecimento como Patrimônio UNESCO (2011). |
O último de sua espécie — O artigo menciona o caso emblemático de Achatinella apexfulva, a primeira espécie de Achatinellinae descrita pela ciência ocidental (em 1789, a partir de conchas em um colar havaiano). O último indivíduo conhecido — apelidado de “George”, em referência à última tartaruga-gigante de Pinta (Galápagos) — morreu em cativeiro em 1º de janeiro de 2019, aos 14 anos de idade.
Conclusão dos autores
Cowie, Bouchet e Fontaine concluem que “devastação” não é um termo hiperbólico para descrever o destino de muitas faunas insulares de gastrópodes terrestres, com níveis de extinção documentados na ordem de 30–50%, e até 80% ou mais em algumas ilhas. Os programas de conservação ex situ podem ganhar tempo, mas a restauração de habitat sozinha não será suficiente enquanto predadores invasores não forem removidos em escala paisagística — uma meta que não está no horizonte previsível.
Os autores encerram com um chamado urgente: levantamentos de campo direcionados são necessários para encontrar e coletar espécimes representativos das espécies remanescentes, de modo que o conhecimento da existência dessas faunas diversas esteja disponível para a posteridade.
Perguntas Frequentes
Qual grupo animal tem a maior taxa de extinção documentada?
Os gastrópodes terrestres. Segundo a IUCN, 5% das espécies avaliadas estão listadas como extintas — proporção muito superior à de aves (1,5%), mamíferos (1,4%) e insetos (0,4%). Especialistas estimam que mais de 1.000 espécies de moluscos já se extinguiram.
O que causou tantas extinções de caramujos em ilhas?
As principais causas são: destruição de habitat (desmatamento e introdução de ungulados), introdução de predadores invasores (especialmente o caramujo Euglandina e a planária Platydemus manokwari), predação por ratos, e coleta excessiva. As mudanças climáticas, por outro lado, não foram documentadas como causa direta de nenhuma extinção.
O que foi o desastre do controle biológico com Euglandina?
A partir de 1955, o caramujo predador Euglandina (originário do sudeste dos EUA) foi deliberadamente introduzido em dezenas de ilhas do Pacífico para controlar o caramujo-gigante-africano (Lissachatina fulica). Em vez de controlar a praga, Euglandina predou preferencialmente os caramujos endêmicos de reprodução lenta, causando a extinção de dezenas a centenas de espécies.
Existem programas de conservação para caramujos terrestres?
Sim. Programas de criação em cativeiro operam para Partula (Polinésia Francesa — 15 zoológicos em 5 países), Achatinellinae (Havaí — programa SEPP), Poecilozonites (Bermudas — Chester Zoo) e Mandarina (Ogasawara, Japão). O programa das Bermudas já reintroduziu mais de 111.000 indivíduos na natureza.
As mudanças climáticas ameaçam moluscos terrestres insulares?
Embora nenhuma extinção tenha sido atribuída diretamente às mudanças climáticas até o momento, os autores identificam riscos futuros: espécies restritas a altitudes elevadas podem perder habitat à medida que predadores invasores expandem seu alcance para altitudes maiores com o aquecimento. Ciclones tropicais mais frequentes e intensos também representam ameaça potencial.
Este artigo tem relevância para o Brasil?
Embora o foco principal seja em ilhas oceânicas do Pacífico, Atlântico e Índico, os temas abordados são diretamente relevantes para ilhas brasileiras (Fernando de Noronha, Trindade) e para a conservação de gastrópodes terrestres brasileiros em geral — especialmente considerando que o Brasil abriga 748 espécies terrestres, muitas em fragmentos florestais ameaçados, e que espécies invasoras como Lissachatina fulica já estão amplamente disseminadas no país.
Referência
Cowie, R. H., Bouchet, P. & Fontaine, B. (2026). Devastation of island biodiversity: a land snail perspective. Philosophical Transactions of the Royal Society B, 381: 20240425. DOI: 10.1098/rstb.2024.0425
Fotos: Museu Nacional de História Natural, Paris. SYNTYPE de Bonnanius bouvieri Jousseaume, 1900; MNHN-IM-2000-28020, 22.5 mm, coll. Jousseaume. Espécie considerada Extinta, endêmica do Arquipélago de Fernando de Noronha, Brasil
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Publicado em abril de 2026.