Donax trapesialis: morfometria geométrica revela uma nova espécie de bivalve no Nordeste brasileiro
Um estudo publicado em julho de 2025 na revista Zoosystema acaba de descrever uma nova espécie de bivalve da família Donacidae para a costa nordeste do Brasil: Donax trapesialis Castro, Martinez, Passos, Marques & Dornellas, 2025. A descoberta, baseada em milhares de conchas coletadas nas praias de Aracaju (Sergipe) e depositadas na Coleção Zoológica da Universidade Federal de Sergipe, eleva para seis o número de espécies do gênero Donax conhecidas em águas brasileiras.
Os Donax — popularmente chamados de “mariscos-de-praia” ou surf clams — são pequenos bivalves filtradores que vivem enterrados nos primeiros centímetros de areia de praias tropicais. Muitas espécies realizam migrações mareais, acompanhando o sobe-e-desce da maré ao longo do dia. Apesar de abundantes e ecologicamente importantes, o grupo acumulou décadas de confusão taxonômica no Atlântico ocidental, em grande parte pela plasticidade da forma das conchas e pela tendência de diferentes espécies co-ocorrerem nas mesmas praias.
“Os resultados da análise morfométrica sustentaram estatisticamente os achados da análise conconchológica tradicional. Identificamos uma nova espécie, Donax trapesialis n. sp., caracterizada por uma crista posterior uniformemente arredondada, forma trapezoidal com margem anterior mais larga, margem ventral côncava e zonas triradiais purpúreas frequentes.” — Castro et al., 2025
O gênero Donax no Brasil: lacunas persistentes
Até esta publicação, cinco espécies de Donax estavam formalmente registradas para o litoral brasileiro: D. denticulatus Linnaeus, 1758 (do Pará a Alagoas), D. striatus Linnaeus, 1767 (do Maranhão ao Rio Grande do Norte), D. vellicatus Reeve, 1855 (registrada apenas no Rio Grande do Norte por Morrison em 1971), D. hanleyanus Philippi, 1847 e D. gemmula Morrison, 1971 (ambas do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul). Em 2013, Barroso e colaboradores ampliaram significativamente o conhecimento biogeográfico do grupo ao registrar D. gemmula no Ceará, levantando duas hipóteses explicativas: introdução via água de lastro ou distribuição contínua ao longo de toda a costa brasileira.
O litoral de Sergipe, entretanto, permanecia inexplorado sob o ponto de vista taxonômico. A Coleção Zoológica da UFS (CZUFS) abriga milhares de espécimes de donacídeos coletados nas décadas de 1990, oferecendo material de primeira grandeza para um estudo integrativo. Foi justamente este acervo que o grupo de Castro e colaboradores se dispôs a examinar — e que rendeu duas conclusões relevantes.
Conquiliologia clássica e morfometria geométrica lado a lado
Os autores combinaram duas abordagens complementares: a análise conconchológica tradicional, apoiada em caracteres descritivos como formato, coloração e ornamentação da concha, e a morfometria geométrica baseada em pontos de referência (landmarks) e semilandmarks. Para isso, fotografaram a face interna da valva esquerda de 147 conchas (88 de Aracaju e 59 de São Paulo, coletadas em Santos e São Sebastião) e digitalizaram oito landmarks fixos mais 80 semilandmarks distribuídos pela margem ventral.
As análises estatísticas — Análise de Componentes Principais (PCA), ANOVA de Procrustes, regressão multivariada e agrupamento por k-means — convergiram para o mesmo resultado: dois morfotipos claramente distintos conviviam nas praias sergipanas. Um deles correspondia inequivocamente a D. gemmula, confirmando pela segunda vez sua presença no Nordeste e reforçando a hipótese de distribuição contínua de Barroso et al. (2013). O outro morfotipo, porém, não se encaixava em nenhuma espécie brasileira previamente descrita.
Ficha de Donax trapesialis
Como reconhecer Donax trapesialis no campo
A concha de D. trapesialis tem formato inconfundível quando comparada às demais espécies brasileiras do gênero. Sua proporção altura/comprimento fica entre 1/2 e 3/5 — substancialmente menor que os mais de 2/3 típicos de D. gemmula —, o que confere à valva o aspecto trapezoidal que dá nome à espécie. A margem ventral é plana ou levemente côncava na porção central (contrastando com a margem convexa de D. gemmula), e os pontos extremos anterior e posterior ficam deslocados ventralmente em relação à cicatriz dos músculos adutores e ao umbo.
A crista posterior é uniformemente arredondada, caráter que separa D. trapesialis das espécies D. striatus, D. hanleyanus e D. denticulatus — todas possuidoras de uma crista posterior carenada e nítida, traço presente até mesmo em juvenis. A coloração é esbranquiçada ou cinza-clara, frequentemente com faixas triradiais purpúreas mais evidentes na face interna. O periostraco é fino e caducifólio, visível apenas próximo à margem ventral.
Uma reidentificação histórica
Um dos aspectos mais intrigantes do estudo é a reinterpretação de um lote depositado na Academia de Ciências Naturais de Drexel (ANSP 244133), coletado em Maceió (Ponta Verde, Alagoas). Morrison (1971) havia sugerido que esses exemplares poderiam ser juvenis de D. vellicatus — hipótese que os autores consideram improvável. O argumento é ecológico e curatorial: se D. vellicatus habitasse a região, seria razoável encontrar espécimes adultos entre as mais de 28 mil conchas depositadas na CZUFS provenientes de Aracaju. A ausência total desses adultos sugere que o material de Maceió, na verdade, representa D. trapesialis n. sp. — uma pista de que a distribuição da espécie pode se estender ao sul pelo menos até Alagoas.
Chave dicotômica adaptada para os Donax brasileiros
Os autores adaptaram uma chave dicotômica desenvolvida por Lima & Marques (com. pess.) para incluir a nova espécie. Reproduzimos a versão aplicável às seis espécies atualmente reconhecidas em águas brasileiras:
Significado biogeográfico e taxonômico
Para além da descrição da nova espécie, o estudo traz contribuições importantes para a biogeografia dos donacídeos do Atlântico ocidental. A confirmação de D. gemmula em Sergipe reforça a hipótese de distribuição contínua desta espécie entre o Ceará e o Rio Grande do Sul, tornando menos provável a explicação original de introdução por água de lastro. A análise de regressão multivariada revelou ainda uma relação alométrica modesta — apenas 6,9% da variação de forma pode ser atribuída ao tamanho —, sugerindo que outros fatores (ecológicos, genéticos, ou de plasticidade fenotípica) desempenham papel mais relevante na diferenciação morfológica entre as populações.
Metodologicamente, o trabalho também ilustra bem o potencial da morfometria geométrica associada a técnicas de agrupamento por k-means como ferramentas auxiliares na taxonomia integrativa. Os autores lembram, no entanto, que esses métodos funcionam como coadjuvantes e não substituem a consolidação de evidências múltiplas — morfológicas, anatômicas e moleculares — no momento de tomar decisões taxonômicas.
Perguntas Frequentes
Quantas espécies de Donax existem no Brasil atualmente?
Com a descrição de D. trapesialis n. sp., o Brasil passa a abrigar seis espécies reconhecidas: D. denticulatus, D. striatus, D. vellicatus, D. hanleyanus, D. gemmula e D. trapesialis.
Como diferenciar D. trapesialis de D. gemmula no campo?
A diferença mais prática está na silhueta da concha: D. trapesialis é trapezoidal, com margem ventral plana ou côncava e proporção altura/comprimento entre 1/2 e 3/5. D. gemmula, em contraste, tem perfil subgloboso, margem ventral convexa e proporção superior a 2/3. Conchas de D. trapesialis também tendem a ser maiores em tamanho final.
O que significa “morfometria geométrica”?
É uma técnica quantitativa que analisa a forma dos organismos por meio de pontos de referência anatômicos (landmarks) digitalizados em imagens. Após alinhamento pelo método de Procrustes, as diferenças de forma podem ser visualizadas e testadas estatisticamente, separando variação de tamanho da variação de forma propriamente dita.
A espécie ocorre em outros estados nordestinos além de Sergipe?
Possivelmente sim. Os autores argumentam que exemplares depositados na ANSP coletados em Ponta Verde (Maceió, Alagoas), previamente identificados por Morrison (1971) como juvenis de D. vellicatus, correspondem na verdade a D. trapesialis. Levantamentos padronizados em outros litorais nordestinos devem esclarecer o limite norte e sul de sua distribuição.
Por que a descrição é baseada apenas em conchas?
Os exemplares disponíveis na CZUFS foram coletados na década de 1990 e as partes moles não estavam em condição adequada de preservação para estudo anatômico. Descrições baseadas exclusivamente em caracteres conquiliológicos são, entretanto, práticas aceitas e comuns em malacologia, sobretudo quando sustentadas por análises morfométricas robustas como as apresentadas no estudo.
Referência
Castro J. G., Martinez P. A., Passos F. D., Marques R. C. & Dornellas A. P. S. 2025. — Geometric morphometrics of donacids from Brazil reveals a new species, Donax trapesialis n. sp. from Northeastern coast. Zoosystema 47 (19): 399–412. DOI: https://doi.org/10.5252/zoosystema2025v47a19
Referências complementares citadas
Barroso C., Rabay S., Passos F. & Matthews-Cascon H. 2013. — An extended geographical distribution of Donax gemmula Morrison, 1971 (Bivalvia: Donacidae): New record from the Brazilian Northeastern coast. Check List 9 (5): 1087–1090. DOI: https://doi.org/10.15560/9.5.1087
Morrison J. 1971. — West Atlantic Donax. Proceedings of the Biological Society of Washington 83 (48): 545–568.
Passos F. D. & Domaneschi O. 2004. — Biologia e anatomia funcional de Donax gemmula Morrison (Bivalvia, Donacidae) do litoral de São Paulo, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia 21 (4): 1017–1032. DOI: https://doi.org/10.1590/S0101-81752004000400040
Moncada E., Lord A., Simone L. R. L., Adjei-Boateng D., Bouchet P., Strong E. E., Bieler R. & Giribet G. 2022. — Marine surf to freshwater: a molecular phylogeny of Donacidae (Bivalvia: Heterodonta). Invertebrate Systematics 36: 984–1001. DOI: https://doi.org/10.1071/IS22026
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