O que são Abalones?
| Filo | Mollusca |
| Classe | Gastropoda |
| Ordem | Lepetellida |
| Superfamília | Haliotoidea |
| Família | Haliotidae Rafinesque, 1815 |
| Gênero | Haliotis Linnaeus, 1758 |
| Espécies reconhecidas | 54 (WoRMS) |
Os abalones — também chamados de ear shells (conchas-orelha) em inglês, orejas de mar em espanhol e oreilles de mer em francês — são gastrópodes marinhos pertencentes à família Haliotidae, que contém um único gênero vivente: Haliotis. O nome genérico vem do grego hals (mar) + ous (orelha), uma referência ao formato achatado e auricular da concha. Já o nome popular “abalone” tem origem no espanhol americano abulón, derivado de aulon, palavra do idioma Rumsen — uma língua indígena extinta da região de Monterey Bay, na Califórnia.
Trata-se de um grupo antigo: os primeiros registros fósseis datam do Cretáceo Superior, embora o registro paleontológico apresente lacunas significativas até o Eoceno tardio, tornando-se mais frequente a partir do Mioceno Superior. Atualmente são reconhecidas 54 espécies, distribuídas em águas costeiras temperadas e tropicais de quase todo o mundo — com exceção notável da costa leste da América do Sul e da costa leste dos Estados Unidos, onde a família é representada apenas pela espécie de águas profundas Haliotis pourtalesii.
Anatomia e Morfologia da Concha
A concha dos abalones é inconfundível entre os gastrópodes. Apresenta perfil oval a arredondado, fortemente deprimida, c
om 2 a 3 voltas e a última volta enormemente expandida em forma de orelha — a chamada volta corporal, que constitui a maior parte da concha. A espira é baixa e a abertura é muito ampla, ocupando quase toda a superfície ventral.
A característica mais marcante é a fileira de poros respiratórios (tremata) ao longo da margem esquerda da concha. Esses orifícios permitem a saída da água que circulou pelas brânquias, funcionando como um sistema exalante. O número de poros abertos (geralmente entre 4 e 10 nas espécies adultas) e a elevação de suas bordas são caracteres diagnósticos importantes para a identificação taxonômica.
A superfície externa varia conforme a espécie: pode ser relativamente lisa, com costelas espirais onduladas, com lamelas radiais proeminentes ou com escultura combinada. Em ambientes naturais, a superfície frequentemente fica coberta por organismos incrustantes (algas, briozoários, cracas) que mascaram a ornamentação original. Os abalones não possuem opérculo nem perióstraco.
A superfície interna é revestida por uma espessa camada de nácar (madrepérola), composta por cristais de aragonita organizados em microestruturas laminares alternadas com camadas de proteínas orgânicas. Essa arquitetura microscópica é responsável pela iridescência intensa e multicolorida que torna os abalones tão apreciados em joalheria e artesanato decorativo.
O animal
O animal possui um pé muscular grande e poderoso, com forte capacidade de sucção que lhe permite aderir firmemente a superfícies rochosas. Entre a borda da concha e o substrato, projeta-se o epipódio — uma extensão sensorial do pé que porta numerosos tentáculos. Esses tentáculos epipodiais são órgãos sensoriais que detectam tato, movimento da água e luz. A morfologia, coloração e estrutura do epipódio são caracteres adicionais utilizados na identificação de espécies, assim como a coloração da sola do pé.
As dimensões dos abalones variam enormemente: de apenas 2 cm nas espécies menores (como a subespécie brasileira) a mais de 30 cm de comprimento nas grandes espécies comerciais como Haliotis rufescens (red abalone, da Califórnia) e Haliotis midae (perlemoen, da África do Sul).
Ecologia e Hábitat
A maioria das espécies de abalone habita a zona sublitoral rasa, desde a zona entremarés até cerca de 30 metros de profundidade, fixando-se em substratos rochosos. Há exceções notáveis: Haliotis pourtalesii, por exemplo, ocorre entre 36 e 366 metros de profundidade, sendo uma das poucas espécies verdadeiramente batiais dentro da família.
Todos os abalones são herbívoros, alimentando-se exclusivamente de algas — tanto macroalgas quanto biofilme algal. Os pigmentos presentes nas algas consumidas determinam a coloração da superfície externa da concha, o que explica a variação cromática observada mesmo dentro de uma mesma espécie, dependendo da dieta local.
São animais gonocóricos (sexos separados) que se reproduzem por broadcast spawning — liberação simultânea de gametas na coluna d’água, com fecundação externa. Esse modo reprodutivo exige que os indivíduos estejam relativamente próximos para que os gametas se encontrem, o que torna as populações vulneráveis quando a densidade cai abaixo de um limiar crítico — um fator determinante nas crises de conservação do grupo.
Os abalones são presa de diversos predadores: caranguejos, peixes, mamíferos marinhos e moluscos predadores. As lontras-marinhas (Enhydra lutris) são seus predadores mais célebres, utilizando pedras como ferramenta para abrir as conchas — um dos comportamentos mais notáveis de uso de ferramentas no reino animal.
Diversidade e Distribuição Global
As 54 espécies reconhecidas do gênero Haliotis distribuem-se predominantemente em regiões temperadas, com alguns representantes em mares tropicais. As maiores concentrações de diversidade ocorrem na Australásia (Austrália, Nova Zelândia), no sul da África, no Pacífico Norte (Japão, Coreia, costa oeste da América do Norte) e no Atlântico oriental (Europa, Mediterrâneo, Golfo da Guiné).
Algumas espécies notáveis:
Haliotis rufescens (Red Abalone) — Califórnia. A maior espécie vivente, podendo ultrapassar 30 cm. Criticamente Em Perigo (CR) segundo a IUCN.
Haliotis midae (Perlemoen) — África do Sul. Concha de 12–20 cm. Em Perigo (EN), com severa crise de caça ilegal para mercados asiáticos.
Haliotis iris (Pāua) — Nova Zelândia. Famosa pelo nácar de coloração azul-esverdeada intensa. Menor Preocupação (LC).
Haliotis tuberculata (Ormer) — Europa e Mediterrâneo. Classificada por Linnaeus em 1758. Vulnerável (VU).
Haliotis discus hannai (Ezo-awabi) — Japão e Coreia. Principal espécie na aquicultura mundial.
É importante notar que os abalones são conhecidos por hibridizar com relativa facilidade, o que historicamente gerou confusão taxonômica. O número de espécies reconhecidas variou entre 100 e 130 antes das revisões modernas, e a referência taxonômica mais abrangente é a monografia de Geiger & Owen (2012), Abalone: Worldwide Haliotidae.
O Abalone Brasileiro: Haliotis pourtalesii Dall, 1881
| Nome científico | Haliotis pourtalesii Dall, 1881 |
| Nome popular | Abalone de Pourtalès (Pourtales’ Abalone) |
| Subespécies | H. p. pourtalesii Dall, 1881 | H. p. aurantium Simone, 1998 |
| Tamanho máximo | 30 mm (forma nominal) | até 20 mm (aurantium) |
| Profundidade | 36–366 m (forma nominal) | 48–150 m (aurantium) |
| Substrato | Fundos duros — cascalho de conchas, algas calcárias, pedra |
| Distribuição | Carolina do Norte (EUA) ao sul do Brasil, passando pelo Golfo do México, Caribe, Colômbia, Venezuela, Suriname e Antilhas |
| Ocorrência no Brasil | Do Pará ao Rio Grande do Sul |
| Status IUCN | Deficiente em Dados (DD) |
Haliotis pourtalesii é uma espécie rara e de águas profundas, bastante diferente dos grandes abalones comerciais. Foi descrita originalmente por William Healey Dall em 1881, a partir de material coletado pela expedição do navio “Blake” no Golfo do México e Caribe, sob supervisão de Alexander Agassiz. A espécie foi redescoberta por Henderson em 1915 após um período sem registros.
A concha é pequena (18–30 mm na forma nominal), com 22 a 27 costelas espirais onduladas na superfície externa, cuja coloração varia de amarelo-ceroso a marrom claro, com manchas irregulares alaranjadas. Uma faixa alaranjada clara estende-se de cada poro até a margem da concha.
A subespécie brasileira: H. p. aurantium
A subespécie Haliotis pourtalesii aurantium foi descrita por Luiz Ricardo Lopes de Simone em 1998, com localidade-tipo na Bacia de Campos, Rio de Janeiro. Originalmente descrita como espécie plena (Haliotis aurantium), foi posteriormente reclassificada como subespécie de H. pourtalesii na revisão de Geiger & Owen (2012). Com concha de 9 a 20 mm e distribuição confirmada em vários estados brasileiros (RS, SP, RJ, ES, BA), representa a ocorrência mais meridional do gênero Haliotis no Atlântico ocidental.
A rádula desta espécie apresenta um dente lateral muito estreito, uma peculiaridade compartilhada apenas com Haliotis dalli Henderson, 1915 e H. dalli roberti McLean, 1970 — o que sustenta afinidade filogenética entre os abalones do Atlântico ocidental.
⚠️ Atenção para colecionadores
Espécimes juvenis de abalones de outras regiões são ocasionalmente oferecidos no mercado conquiliológico como se fossem H. pourtalesii. Dada a raridade da espécie genuína e sua ocorrência exclusivamente em águas profundas, recomenda-se cautela e verificação de procedência.
Conservação: Um Cenário Preocupante
Em dezembro de 2024, Peters, Ralph & Rogers-Bennett publicaram na revista PLoS ONE a primeira avaliação global de risco de extinção para todas as 54 espécies de abalone, utilizando a metodologia da Lista Vermelha da IUCN. Os resultados são alarmantes.
🔴 Resultados da Avaliação Global (Peters et al., 2024)
Das 54 espécies avaliadas: 7 Criticamente Em Perigo (CR), 6 Em Perigo (EN), 7 Vulneráveis (VU), 3 Quase Ameaçadas (NT), 22 de Menor Preocupação (LC) e 9 Deficientes em Dados (DD). Nenhuma espécie foi classificada como Extinta.
Entre as 21 espécies exploradas comercialmente, 15 (71%) são consideradas ameaçadas — uma taxa mais de 4 vezes superior à das espécies não exploradas (15%), evidenciando o impacto devastador da pesca sobre o grupo.
As sete espécies criticamente ameaçadas — todas com tendência populacional decrescente — incluem cinco espécies comerciais da costa pacífica da América do Norte: H. rufescens (Red), H. cracherodii (Black), H. fulgens (Green), H. sorenseni (White) e H. corrugata (Pink Abalone). Apesar de anos de moratória pesqueira (com exceções apenas no Alaska e no México), todas permanecem ameaçadas.
As principais ameaças identificadas são: sobrepesca (legal e ilegal), doenças virais, acidificação oceânica, aquecimento da água do mar e perda de habitat algal. Na África do Sul, a crise é particularmente aguda: a pesca ilegal de H. midae foi estimada em 3.477 toneladas em 2015, contra apenas 105 toneladas da pesca legal no mesmo ano, alimentando um mercado negro que abastece principalmente Hong Kong.
Quanto a Haliotis pourtalesii, a espécie foi classificada como “Deficiente em Dados” (DD). Sua ocorrência em águas profundas dificulta o monitoramento populacional, e sua distribuição real permanece incerta.
Aquicultura e Importância Econômica
Os abalones estão entre os frutos do mar mais valorizados do mundo, com importância cultural e gastronômica milenar — especialmente no Japão, China, Coreia e em comunidades indígenas da Califórnia, Austrália e Nova Zelândia. A primeira menção registrada do uso de abalones como alimento remonta a Aristóteles, por volta de 400 a.C., e relatos de mergulho para coleta de abalones no Japão datam de 425 d.C.
A trajetória da produção global reflete uma dramática inversão: enquanto a pesca extrativa declinou de quase 20.000 toneladas nos anos 1970 para cerca de 5.850 toneladas em 2020/21, a produção aquícola cresceu de quantidades negligenciáveis para 243.506 toneladas no mesmo período. A China domina amplamente a aquicultura de abalone, respondendo por cerca de 88% da produção global cultivada, seguida pela Coreia do Sul.
O mercado global foi avaliado em mais de US$ 2 bilhões em 2024, com projeções de crescimento contínuo impulsionado pela demanda asiática por frutos do mar premium, pela diversificação de aplicações (cosmética, farmacêutica, nutracêutica) e pelo avanço das técnicas de cultivo.
A concha dos abalones também tem grande valor comercial. O nácar é amplamente utilizado em joalheria, marchetaria, embutidos decorativos e artesanato. As espécies californianas (H. rufescens, H. corrugata, H. fulgens) são especialmente apreciadas pela riqueza cromática de seu nácar. Abalones podem produzir pérolas, embora geralmente de qualidade inferior e formato irregular quando comparadas às pérolas de ostras.
Curiosidades
Lontras e abalones: As lontras-marinhas são provavelmente os predadores mais eficientes dos abalones em ambientes rasos. Elas mergulham, arrancam os abalones das rochas e usam pedras como bigorna para quebrar as conchas — um dos comportamentos mais sofisticados de uso de ferramentas entre mamíferos não primatas.
Uso cultural milenar: Conchas de abalone foram encontradas em sítios arqueológicos desde a Califórnia até o norte de Utah e Texas, indicando amplas rotas de comércio indígena. Os povos nativos da Baja California e Califórnia faziam uso extensivo destes moluscos tanto como alimento quanto como matéria-prima para adornos.
Tráfico organizado: O abalone sul-africano (H. midae) é alvo de redes criminosas internacionais. Segundo relatório da TRAFFIC, entre 2000 e 2021 a espécie representou cerca de 15% de todo o volume de abalone importado por Hong Kong, sendo que até 65% do abalone seco sul-africano comercializado naquele mercado é de origem ilegal.
Conchas como utensílios: Ao longo da história, as grandes conchas de abalones foram usadas como recipientes (saboneteiras, cinzeiros, tigelas cerimoniais) e como objetos decorativos. Pinturas com tema de abalone são documentadas na arte desde pelo menos 1604.
Perguntas Frequentes
O que são abalones?
Abalones são gastrópodes marinhos da família Haliotidae, com um único gênero vivente: Haliotis. São conhecidos por sua concha em forma de orelha, perfurada por uma fileira de poros respiratórios, e por seu interior intensamente madreperolado. Existem 54 espécies reconhecidas, distribuídas em águas costeiras de quase todo o mundo.
Existe abalone no Brasil?
Sim. O Brasil abriga Haliotis pourtalesii Dall, 1881, com a subespécie H. p. aurantium Simone, 1998, descrita a partir de material da Bacia de Campos (RJ). É uma espécie rara e de águas profundas (36 a 366 m), com concha de no máximo 30 mm na forma nominal e até 20 mm na subespécie brasileira. Ocorre do Pará ao Rio Grande do Sul.
Por que os abalones estão ameaçados?
Uma avaliação global da IUCN publicada em 2024 classificou 20 das 54 espécies como ameaçadas. As principais ameaças são sobrepesca (legal e ilegal), doenças virais, acidificação oceânica e aquecimento da água. Espécies comercialmente exploradas têm mais de 4 vezes a probabilidade de ameaça em relação às não exploradas.
Qual o valor econômico do abalone?
O mercado global foi avaliado em mais de US$ 2 bilhões em 2024. Mais de 95% da produção atual vem da aquicultura, com a China responsável pela grande maioria da produção cultivada, que ultrapassou 243 mil toneladas em 2020/21.
O que é o nácar do abalone?
O nácar (madrepérola) é a camada interna iridescente da concha, composta por cristais de aragonita em camadas microscópicas alternadas com proteínas orgânicas. Essa microestrutura produz o efeito óptico iridescente. O nácar dos abalones é usado em joalheria, marchetaria e artesanato, sendo as espécies californianas especialmente valorizadas.
Referências
- Dall, W. H. (1881). Preliminary report on the Mollusca. Bulletin of the Museum of Comparative Zoology, 9(2): 33–144.
- Simone, L. R. L. (1998). Descrição original de Haliotis aurantium. Bacia de Campos, Rio de Janeiro, Brasil.
- Geiger, D. L. & Owen, B. (2012). Abalone: Worldwide Haliotidae. Hackenheim: Conchbooks. viii + 361 pp.
- Henderson, J. B. (1915). Rediscovery of Pourtalès’ Haliotis. Proceedings of the United States National Museum, 48(2091): 659–661.
- Klappenbach, M. A. (1968). Notas malacológicas I. Haliotis pourtalesii Dall, 1881 en la costa brasileña de San Pablo. Comunicaciones Zoológicas del Museo de Historia Nacional de Montevideo, IV(122): 7.
- Titgen, R. H. & Bright, T. J. (1985). Notes on the distribution and ecology of the Western Atlantic abalone, Haliotis pourtalesii. Northeast Gulf Science, 7(2): 147–152.
- Rios, E. C. (1985). Seashells of Brasil. Fundação Cidade do Rio Grande.
- Peters, H., Ralph, G. M. & Rogers-Bennett, L. (2024). Abalones at risk: A global Red List assessment of Haliotis in a changing climate. PLoS ONE, 19(12): e0309384.
- Cook, P. A. (2023/2025). Worldwide abalone production: an update. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research, 59(1): 4–10.
- Geiger, D. L. & Poppe, G. T. (2000). A Conchological Iconography: The family Haliotidae. Conchbooks, Hackenheim. 135 pp., 83 pls.
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Conteúdo atualizado em abril de 2026. Publicação original: junho de 2023.