Inventário revela 40 espécies de gastrópodes terrestres em três reservas do Sudeste
Um estudo publicado em março de 2026 nos Papéis Avulsos de Zoologia — periódico do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo — apresenta os resultados de levantamentos de gastrópodes terrestres em três unidades de conservação do Espírito Santo e de Minas Gerais, dentro do bioma Mata Atlântica.
O trabalho, conduzido por Rodrigo B. Salvador (Universidade de Helsinque / Museu de História Natural da Finlândia) e colaboradores de universidades brasileiras e internacionais, identificou 35 espécies distribuídas em 15 famílias, além de cinco morfoespécies adicionais que não puderam ser determinadas até o nível específico — totalizando 40 táxons.
| Síntese dos resultados | |||
| 3 unidades de conservação |
15 famílias representadas |
35 + 5 espécies + morfoespécies |
4 novos registros estaduais |
As três áreas estudadas
As coletas foram realizadas em duas reservas biológicas e um parque nacional, todos localizados no norte do Espírito Santo e na divisa com Minas Gerais:
| Unidade de Conservação | Estado | Táxons | Características |
|---|---|---|---|
| Parque Nacional do Caparaó | ES / MG | 16 | Abriga o Pico da Bandeira (2.892 m). Vegetação de altitude com campos rupestres e Mata Atlântica montana. |
| Reserva Biológica Córrego do Veado | ES | 23 | Remanescente de Mata Atlântica de tabuleiro no norte do Espírito Santo. A mais diversa das três áreas. |
| Reserva Biológica de Sooretama | ES | 22 | Uma das maiores reservas de Mata Atlântica de baixada do Espírito Santo. Conectada à Reserva Natural Vale. |
Principais resultados
Novos registros para o Espírito Santo e Minas Gerais
O estudo amplia a distribuição geográfica conhecida de quatro espécies, registradas pela primeira vez para o Espírito Santo (ou para Minas Gerais, no caso do Caparaó):
| Espécie | Família | Localidade |
|---|---|---|
| Rectartemon piquetensis | Streptaxidae | Caparaó |
| Anthinus multicolor | Odontostomidae | Caparaó |
| Burringtonia labrosa | Cyclodontinidae | Córrego do Veado / Sooretama |
| Rhinus velutinohispidus | Simpulopsidae | Córrego do Veado |
Espécies exóticas
Apenas duas espécies não nativas foram encontradas — um número relativamente baixo, indicando que essas unidades de conservação ainda mantêm boa integridade ambiental:
Subulina octona (Subulinidae) — encontrada em Sooretama. Pequeno gastrópode terrestre de origem africana, amplamente disseminado nos trópicos. Considerada uma das espécies exóticas mais comuns no Brasil.
Deroceras laeve (Agriolimacidae) — encontrada no Caparaó. Lesma de origem holártica, presente em áreas úmidas e de altitude. Potencial hospedeiro intermediário de nematoides parasitas (Angiostrongylus).
Observações de história natural
O estudo registra indivíduos despigmentados (com perda parcial de coloração) de Leiostracus perlucidus, um gastrópode terrestre da família Simpulopsidae. Embora o albinismo verdadeiro seja raro em moluscos terrestres, variações de pigmentação podem ocorrer naturalmente e merecem documentação para compreensão da variabilidade intraespecífica.
Relevância do estudo
A Mata Atlântica é considerada um hotspot de diversidade de gastrópodes terrestres, mas resta menos de 12% de sua cobertura florestal original. Apesar de ter sido amplamente explorada por malacólogos no passado, levantamentos modernos em áreas de conservação importantes são escassos.
Os gastrópodes terrestres estão entre os grupos de animais com as maiores taxas de extinção documentadas no mundo. Segundo estimativas globais, centenas de espécies de moluscos terrestres já se extinguiram — muitas delas sem nunca terem sido formalmente descritas pela ciência.
| Contribuição | Significado |
|---|---|
| Documentação da diversidade | Muitas espécies são conhecidas apenas de poucos registros. Novas coletas ampliam o conhecimento sobre distribuição e ecologia. |
| Potencial de espécies novas | As cinco morfoespécies indeterminadas podem representar espécies ainda não descritas — algo frequente em gastrópodes terrestres neotropicais. |
| Avaliação de áreas protegidas | Saber quais espécies habitam cada unidade de conservação é essencial para planos de manejo e monitoramento de invasões biológicas. |
| Detecção de exóticas | Apenas duas espécies exóticas nas três reservas é um indicador positivo da integridade desses remanescentes florestais. |
Contexto nacional — O Brasil abriga cerca de 750 espécies de gastrópodes terrestres, distribuídas em 48 famílias, segundo o checklist nacional publicado por Salvador et al. (2024) no Journal of Conchology. Dessas, 33 são espécies exóticas. As famílias mais diversas são Bulimulidae, Strophocheilidae, Cyclodontinidae, Streptaxidae e Simpulopsidae. O site Conchas Brasil vem atualizando as informações de Gastrópodes terrestres com as novas espécies descritas.
Famílias representadas no estudo
As 15 famílias de gastrópodes terrestres encontradas nas três reservas ilustram a diversidade da Mata Atlântica do Sudeste. Entre as mais representativas:
Bulimulidae — a família mais diversa de gastrópodes terrestres do Brasil, inclui gêneros como Drymaeus, Bulimulus e Oxychona. Conchas cônicas a fusiformes, frequentemente arbóreas.
Strophocheilidae — inclui os maiores gastrópodes terrestres da América do Sul, como Megalobulimus. Conchas que podem superar 15 cm. Família endêmica da região neotropical.
Odontostomidae — gastrópodes com abertura frequentemente provida de dentes ou lamelas. Inclui gêneros como Anthinus e Odontostomus. Anthinus multicolor é um dos novos registros deste estudo.
Streptaxidae — gastrópodes predadores, com conchas frequentemente distorcidas. O gênero Rectartemon é um dos mais comuns na Mata Atlântica.
Simpulopsidae — família endêmica da América do Sul, com espécies arbóreas frequentemente associadas a bromélias e epífitas. Inclui Simpulopsis, Rhinus e Leiostracus.
Cyclodontinidae — família recentemente reconhecida com base em filogenia molecular (Salvador et al., 2023). Inclui gêneros como Burringtonia e Cyclodontina. A presença de Burringtonia labrosa é um dos destaques do estudo.
Helicinidae — gastrópodes operculados (com opérculo calcário), pertencentes à subclasse Neritimorpha. Inclui o gênero Helicina, com diversas espécies na Mata Atlântica.
Scolodontidae — micromoluscos predadores, com conchas diminutas e achatadas. Frequentemente encontrados no folhiço da mata.
Perguntas Frequentes
Quantas espécies de gastrópodes terrestres foram encontradas?
Foram identificadas 35 espécies, distribuídas em 15 famílias, além de cinco morfoespécies adicionais que não puderam ser determinadas — totalizando 40 táxons de gastrópodes terrestres.
Onde foram feitas as coletas?
Em três unidades de conservação do Sudeste do Brasil: Parque Nacional do Caparaó (ES/MG), Reserva Biológica Córrego do Veado (ES) e Reserva Biológica de Sooretama (ES). Todas no bioma Mata Atlântica.
Foram encontradas espécies novas?
O estudo não descreve espécies novas formalmente, mas registra cinco morfoespécies que não puderam ser identificadas até o nível específico — estas podem representar espécies ainda não descritas pela ciência.
Quantas espécies exóticas foram encontradas?
Apenas duas: Subulina octona (de origem africana, em Sooretama) e Deroceras laeve (de origem holártica, no Caparaó). O baixo número indica boa integridade ambiental das reservas.
Quantas espécies de gastrópodes terrestres existem no Brasil?
Segundo o checklist nacional de Salvador et al. (2024), o Brasil abriga 748 espécies de gastrópodes terrestres em 48 famílias, incluindo 33 espécies exóticas. Consulte as espécies no catálogo dos Conquiliologistas do Brasil.
O que são morfoespécies?
Morfoespécies são organismos que não puderam ser identificados até o nível de espécie com base nas características disponíveis. Podem representar espécies já conhecidas cujo material é insuficiente para identificação segura, ou espécies ainda não descritas.
Referência
Salvador, R. B., Antunes, R. F. S., Herculano, H. C., Marconcini, R. I., Primo, R. de A., Rosa, R. M., Silva, F. S., Tomotani, B. M. & Santos, F. N. dos (2026). Surveys of terrestrial gastropods in three nature reserves in southeast Brazil. Papéis Avulsos de Zoologia, 66: e202666007. disponível em https://revistas.usp.br/paz/article/view/238399
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Publicado em abril de 2026.