Projeto Ilhas Oceânicas
GASTRÓPODES TERRESTRES
Os gastrópodes terrestres das ilhas oceânicas figuram entre as faunas mais singulares do planeta. Isolados por dezenas a milhares de quilômetros de oceano aberto, esses caracóis — pequenos, lentos e dependentes de umidade e de substrato calcário — colonizaram, ao longo de milhões de anos, praticamente todos os arquipélagos vulcânicos do mundo, onde diversificaram em dezenas, por vezes centenas de espécies endêmicas. As mesmas circunstâncias que tornam essas faunas únicas as tornam frágeis: os moluscos terrestres insulares concentram a maior parte das extinções animais documentadas desde 1500.
O Projeto Ilhas Oceânicas do Conquiliologistas do Brasil reúne, sob um arcabouço comum, a documentação científica dessa malacofauna em treze arquipélagos do Atlântico Sul e do Pacífico Sul-Americano numa primeira fase — de Fernando de Noronha e Trindade às Galápagos, Juan Fernández e Ilha de Páscoa. Cada arquipélago recebe um inventário das espécies nativas — com autores e datas de descrição —, bibliografia primária consultada e discussão de status de conservação.
Para o panorama completo do projeto — como os caracóis atravessam o mar aberto, por que diversificam tanto uma vez instalados e por que desaparecem em ritmo desproporcional ao seu peso na biota mundial — leia A fauna improvável das ilhas oceânicas.
Selecione um arquipélago abaixo para conhecer sua fauna endêmica.
ARQUIPÉLAGOS
Ilhas Oceânicas Brasileiras
O Brasil possui cinco arquipélagos genuinamente oceânicos: Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vanz, Atol das Rocas, São Pedro e São Paulo,e – em zona controversa quanto à classificação – o Arquipélago de Abrolhos. Apenas dois deles têm fauna malacológica terrestre conhecida.
FERNANDO DE NORONHA
Localizado a cerca de 350 km do litoral nordestino, o arquipélago tem quatro espécies de caracóis terrestres registradas: as endêmicas Hyperaulax ridleyi e Ridleyconcha quinquelirata, ambas descritas por E.A. Smith em 1890, e as amplamente distribuídas Beckianum beckianum e Allopeas gracile. Hyperaulax ridleyi é a espécie mais abundante e foi alvo de revisão taxonômica por Salvador & Cavallari em 2019.
TRINDADE E MARTIM VAZ
A 1.140 km da costa do Espírito Santo, o pico do antigo cone vulcânico que forma a Ilha da Trindade abriga uma fauna malacológica peculiar. As espécies endêmicas conhecidas são Bulimulus brunoi, Naesiotus arnaldoi (Bulimulidae), Oxyloma beckeri, Succinea lopesi (Succineidae) e Vegrandinia trindadensis (Subulinidae). Por décadas acreditou-se que estivessem extintas devido à devastação causada por cabras introduzidas; em 2014, uma expedição redescobriu populações vivas de Succinea lopesi nos picos mais altos da ilha.
Outras Ilhas Oceânicas em foco
Embora o foco histórico do Conchasbrasil seja a fauna brasileira, esta seção também documenta a malacofauna terrestre de outros arquipélagos oceânicos atlânticos e do Pacífico de relevância científica e comparativa:
ATLÂNTICO SUL
SANTA HELENA
Ilha britânica do Atlântico Sul, lar de espécies extintas do gênero Chilonopsis (Achatinidae) e várias Succineidae endêmicas, recentemente revisadas.
ASCENÇÃO
Microfauna pouco documentada, com lacunas significativas no conhecimento atual.
TRISTÃO DA CUNHA
Abriga espécies endêmicas de Balea (Clausiliidae) e Succineidae, em ambiente subantártico.
GOUGH
Integrante administrativo do território de Tristão da Cunha, abriga fauna malacológica peculiar adaptada às condições subantárticas extremas. Patrimônio Mundial da UNESCO, é uma das ilhas oceânicas mais bem preservadas do mundo.
ILHAS MALVINAS (FALKLAND)
Arquipélago subantártico fortemente associado à fauna patagônica; embora estudos malacológicos sistemáticos sejam escassos, a malacofauna terrestre nativa parece extremamente limitada, refletindo as severas condições climáticas e a ausência de cobertura florestal.
GEÓRGIA DO SUL
Ilha subantártica com presença documentada de Notodiscus hookeri (Charopidae), única espécie de caracol terrestre conhecida na ilha — espécie compartilhada com outras ilhas subantárticas como Crozet e Kerguelen. Caso notável de adaptação extrema, com estudos sobre variação morfológica da concha relacionada ao isolamento dos sítios e à disponibilidade de cálcio no solo. Embora rigorosamente classificada como ilha continental, comporta-se biogeograficamente como oceânica devido ao seu extremo isolamento.
PACÍFICO SUL-AMERICANO
JUAN FERNANDEZ (CHILE)
Mundialmente conhecido por inspirar o romance Robinson Crusoé, possui rica fauna endêmica de moluscos terrestres, com representantes únicos de Charopidae, Succineidae e outros grupos. Reserva da Biosfera da UNESCO.
ILHAS DESVENTURADAS (CHILE)
San Félix e San Ambrosio, abrigam Ambrosiella kuscheli e Achatinellidae endêmicas, ainda pouco estudadas.
ILHA DE PÁSCOA (CHILE)
Território chileno na Polinésia oriental, é considerada uma das mais isoladas do mundo. Não possui caracóis terrestres nativos vivos, mas registros subfósseis revelam que abrigou uma fauna malacológica endêmica antes da colonização polinésia (~900–1200 d.C.), extinta junto com a destruição da floresta nativa. Caso paradigmático de extinção antrópica pré-histórica e tema de intensa investigação paleomalacológica.
GALÁPAGOS (EQUADOR)
Talvez o caso mais célebre de evolução insular do planeta. Abriga uma extraordinária radiação adaptativa do gênero Naesiotus (Bulimulidae), com mais de 70 espécies endêmicas distribuídas pelas diferentes ilhas — paralelo malacológico aos famosos tentilhões de Darwin. Muitas espécies enfrentam risco crítico de extinção.
CARIBE E PACÍFICO COLOMBIANO
MALPELO (COLÔMBIA)
Rochedo vulcânico isolado no Pacífico oriental, a cerca de 500 km do litoral colombiano. Apesar das condições áridas extremas, registros indicam presença de microgastrópodes terrestres.
ARQUIPÉLAGO DE SAN ANDRÉS, PROVIDENCIA E SANTA CATALINA (COLÔMBIA)
Grupo de ilhas oceânicas no Caribe ocidental, com fauna malacológica que combina elementos antilhanos e endemismos próprios, especialmente entre Bulimulidae e Urocoptidae.
SAIBA MAIS EM:
Revisão global documenta a devastação da fauna de moluscos terrestres em ilhas oceânicas
Vídeos sobre o assunto
A extinção de moluscos terrestres em ilhas oceânicas é considerada uma das maiores crises de biodiversidade do planeta, já que cerca de 70% das extinções documentadas de moluscos ocorrem em ambientes insulares. Abaixo, selecionamos vídeos cientificamente precisos que detalham esse fenômeno em diferentes regiões
Havaí: A Crise das “Joias da Floresta”
O Havaí já abrigou quase 800 espécies de caracóis terrestres nativos, mas estima-se que até 90% dessa diversidade tenha desaparecido devido a predadores invasores e perda de habitat
Polinésia Francesa: O Caso dos Caracóis Partula
Estes caracóis foram levados à beira da extinção pela introdução do caracol carnívoro rosy wolf snail (Euglandina rosea), usado erroneamente para controle biológico.
Outras Ilhas Oceânicas (Madeira e Norfolk)
Os programas de recuperação nas ilhas da Madeira e Norfolk focam na reprodução em cativeiro e no rigoroso controle de predadores invasores, como ratos e cabras. Essas iniciativas buscam estabilizar populações criticamente ameaçadas para permitir a reintrodução segura em seus micro-habitats originais, revertendo décadas de declínio populacional.