Mineração em alto-mar ameaça os moluscos das fontes hidrotermais: o que revela a nova Lista Vermelha
No dia 9 de julho de 2026, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) divulgou a atualização de sua célebre Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas — e o destaque foi para um grupo de moluscos que quase ninguém jamais viu com os próprios olhos: os habitantes das fontes hidrotermais do fundo do mar. O diagnóstico é alarmante. De 201 espécies de moluscos endêmicas dessas fontes conhecidas no mundo, 125 (62%) já correm risco de extinção, e a causa é uma só: a mineração em alto-mar.
A avaliação, coordenada pelo Departamento de Zoologia Marinha da Senckenberg Nature Research (parceiro da Lista Vermelha), transforma esses moluscos em um dos grupos animais mais ameaçados do planeta. E o momento não é casual: o alerta foi publicado às vésperas da reunião da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, na Jamaica, que discute justamente a regulamentação da mineração submarina.
A IUCN renovou o pedido de moratória à mineração em alto-mar — posição que a instituição defende desde 2021 — até que todos os riscos sejam compreendidos e o ambiente marinho, efetivamente protegido.
Os números da atualização
A Lista Vermelha da IUCN é o inventário mais completo do estado de conservação da biodiversidade mundial. Nesta edição, ela passou a reunir 175.909 espécies avaliadas, das quais 49.505 estão ameaçadas de extinção. Os moluscos das fontes hidrotermais entraram nesse balanço com um dos piores percentuais já registrados para um grupo inteiro.
Quem são esses moluscos das profundezas?
As fontes hidrotermais são fissuras no assoalho oceânico por onde jorra água aquecida pelo magma, carregada de minerais e gases. Descobertas apenas em 1977, na dorsal dos Galápagos, elas abrigam um dos ecossistemas mais improváveis da Terra: comunidades inteiras que vivem sem qualquer luz solar, sustentadas não pela fotossíntese, mas pela quimiossíntese — bactérias que extraem energia dos compostos químicos expelidos pelas fontes.
Nesse cenário de escuridão total, pressão esmagadora e temperaturas extremas, os moluscos prosperam. A avaliação da IUCN abrange caramujos, lapas, mexilhões, ostras, amêijoas e quítons que só existem ali. Muitos deles foram descobertos nos últimos dez anos — e já enfrentam a extinção antes mesmo de a ciência entendê-los por completo.
O emblema desse mundo é o célebre caramujo-de-pé-escamoso, Chrysomallon squamiferum, apelidado de “caramujo-vulcão” ou “pangolim-marinho”. Endêmico de fontes do Oceano Índico, ele é o único animal conhecido que constrói o próprio esqueleto com sulfeto de ferro, revestindo a concha e as escamas do pé com uma verdadeira armadura metálica. Ele também não se alimenta como um caramujo comum: depende de bactérias simbiontes alojadas em uma glândula esofágica, que o nutrem a partir da química das fontes. Em 2019, foi a primeira espécie do mundo declarada ameaçada de extinção especificamente por causa da mineração em alto-mar.
Por que a mineração é tão devastadora
As mesmas fontes que sustentam essa vida acumulam depósitos ricos em cobre, cobalto e zinco — metais cada vez mais cobiçados para novas tecnologias. Ao explorar o assoalho e extrair esses minerais, a mineração levanta plumas de sedimento que se espalham pela água e sufocam os animais, comprometendo sua capacidade de respirar e de absorver nutrientes.
O problema, alertam os pesquisadores, é sistêmico. Segundo o Dr. Chong Chen, do Grupo de Especialistas em Moluscos da IUCN (e autor das imagens que ilustram este post), a mineração em alto-mar sufocaria o ecossistema inteiro: perder os moluscos de um campo hidrotermal significa perder também todas as demais espécies que dependem dele. Um exemplo recém-listado é Lirapex felix — cujo nome celebra a sorte dos cientistas em encontrá-lo — que já entrou na Lista Vermelha como Criticamente em Perigo (CR) por causa da exploração mineira no Oceano Índico.
As plumas de sedimento geradas pela exploração do assoalho marinho podem sufocar a vida marinha, interromper a alimentação e a respiração e danificar ecossistemas frágeis do fundo do mar — muitos deles ainda praticamente desconhecidos.
Espécies que a ciência mal começou a conhecer
Há uma ironia amarga nessa história: esses moluscos podem guardar soluções valiosas para a humanidade — e podemos perdê-las antes de descobri-las. O Chrysomallon squamiferum, por exemplo, desenvolveu um processo de biomineralização que já inspira pesquisadores a produzir nanopartículas para novas tecnologias, como células solares. Outras espécies são estudadas na busca por alternativas ao plástico.
Permitir que essas espécies desapareçam significaria perder, junto com elas, soluções biológicas para desafios futuros na medicina, nos materiais e na tecnologia. Embora representem menos de 1% da diversidade global de moluscos, elas cumprem um papel central nas cadeias alimentares das fontes hidrotermais.
Uma réstia de esperança: onde há proteção, há vida
A mesma avaliação que soa o alarme também mostra o caminho. Mais de 30 espécies de moluscos de fontes hidrotermais estão classificadas como Pouco Preocupante (LC) — justamente por viverem dentro de áreas marinhas protegidas, onde a mineração não é permitida. É o caso de Provanna exquisita, um caramujo ornamentado que só ocorre no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Arco de Fogo das Marianas, no Pacífico.
A lição se repete em terra firme. Na mesma atualização, o numbate australiano (Myrmecobius fasciatus) melhorou de “Em Perigo” para “Quase Ameaçado” após décadas de esforço de conservação. Como resumiu a IUCN, existe uma saída clara para a crise da biodiversidade: a conservação funciona.
Perguntas Frequentes
O que são fontes hidrotermais?
São aberturas no fundo do oceano por onde escapa água superaquecida e rica em minerais, aquecida pelo magma. Elas sustentam ecossistemas únicos que dependem da quimiossíntese, e não da luz do sol.
Por que a mineração em alto-mar ameaça esses moluscos?
A extração de minerais como cobre, cobalto e zinco levanta plumas de sedimento que sufocam os animais e destroem seu habitat. Como muitas espécies só existem em uma única fonte, o dano local pode significar extinção total.
Quantas espécies estão ameaçadas?
Das 201 espécies de moluscos endêmicas de fontes hidrotermais conhecidas no mundo, 125 (62%) estão ameaçadas de extinção, segundo a Lista Vermelha da IUCN de julho de 2026.
Esses moluscos existem no Brasil?
As espécies avaliadas são endêmicas de campos hidrotermais específicos, distribuídos por dorsais oceânicas ao redor do mundo. O tema, porém, diz respeito a toda a humanidade: a mineração em águas internacionais é regulada por um organismo global, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.
Ainda dá para proteger essas espécies?
Sim. Mais de 30 espécies já estão seguras dentro de áreas marinhas protegidas. Por isso a IUCN defende uma moratória à mineração em alto-mar até que os riscos sejam plenamente compreendidos.
Fontes e referências
- IUCN — Comunicado oficial, From desert frog to deep-sea molluscs, remarkable species at risk (9 jul. 2026): iucn.org
- IUCN — The IUCN Red List of Threatened Species (site oficial): iucnredlist.org
- Ficha da espécie Chrysomallon squamiferum na Lista Vermelha (Sigwart, Chen & Thomas, 2019): iucnredlist.org/species
- Sigwart, J., Chen, C. & Thomas, E. A. (2019). Red Listing can protect deep-sea biodiversity. Nature Ecology & Evolution: nature.com
- Smithsonian Ocean — Meet the Metal Snail from the Bottom of the Ocean: ocean.si.edu
- Reuters — Deep-sea mining threatens molluscs holding promise for science, Red List shows (9 jul. 2026): reuters.com
Créditos das imagens: Chong Chen / IUCN.
Conquiliologistas do Brasil — divulgação científica sobre moluscos.