Odontostomidae Pilsbry & Vanatta, 1898

Família Odontostomidae · Gastropoda · Stylommatophora · Rhytidoidea sensu lato · Família eminentemente brasileira que passou por reorganização sistemática profunda na década de 2020. Reúne hoje apenas três gêneros — Anthinus, Gonyostomus e Odontostomus — após a transferência de seus antigos componentes para Cyclodontinidae e Tomogeridae.

 

Odontostomidae Pilsbry & Vanatta, 1898

 

Representantes da família Odontostomidae sensu stricto: Odontostomus, Gonyostomus e Anthinus. Conchas de tamanho médio a grande, com aberturas frequentemente armadas por dentes e lamelas, em padrão diagnóstico que justifica o nome familiar (do grego, “boca-com-dentes”).

A família Odontostomidae foi originalmente proposta por H. A. Pilsbry & E. G. Vanatta em 1898 e tornou-se uma das famílias mais reorganizadas em malacologia neotropical na década de 2020. Após os trabalhos de Salvador & Breure (2023), que descreveram Cyclodontinidae como família nova, e Salvador et al. (2023), que ressuscitaram Tomogeridae Jousseaume, 1877, a família Odontostomidae sensu stricto foi reduzida a apenas três gêneros válidosAnthinus, Gonyostomus e Odontostomus, todos predominantemente brasileiros. No mesmo trabalho, Salvador et al. (2023) removeram a família da Orthalicoidea e transferiram-na provisionalmente para Rhytidoidea sensu lato. No Brasil, conforme Salvador et al. (2024), Odontostomidae é representada por 22 espécies nativas distribuídas nos três gêneros.

Características gerais

Odontostomidae é família de gastrópodes pulmonados terrestres de tamanho médio a grande, com distribuição estritamente sul-americana e centro de diversidade no Brasil. A família foi historicamente concebida em sentido amplo, abrangendo dezenas de gêneros distribuídos em várias subfamílias — Odontostominae, Cyclodontininae, Anostominae — e mais de cento e cinquenta espécies sul-americanas. Esse conceito amplo permaneceu estável de Pilsbry & Vanatta (1898) até o início do século XXI, mantido por trabalhos clássicos como Pilsbry (1901-1902), Bequaert (1948) e Simone (2006).

A reorganização sistemática profunda que reduziu Odontostomidae a três gêneros ocorreu em duas etapas sucessivas. Primeiro, Salvador & Breure (2023), em PLoS ONE, descreveram a família Cyclodontinidae com base em análise filogenética molecular, transferindo para ela os gêneros Cyclodontina Beck, 1837 (gênero-tipo, ressuscitado a partir de Spixia), Bahiensis Jousseaume, 1877, Burringtonia Parodiz, 1944, Clessinia Doering, 1875 (com Spixia Pilsbry & Vanatta como sinônimo júnior), Moricandia Pilsbry & Vanatta, 1898 e Plagiodontes Doering, 1876. Em seguida, Salvador et al. (2023), no mesmo periódico, ressuscitaram a família Tomogeridae Jousseaume, 1877 para acomodar Anostoma Fischer von Waldheim, 1807, Tomigerus Spix, 1827, Hyperaulax Pilsbry, 1897, Biotocus Salgado & Leme, 1990 e Clinispira Simone & Casati, 2013.

No mesmo trabalho de Salvador et al. (2023), a Odontostomidae sensu stricto foi removida da superfamília Orthalicoidea — onde era tradicionalmente alocada — e transferida provisionalmente para a Rhytidoidea sensu lato, com base em sinal filogenético consistente recuperado em análises multi-marcador (cox1, 16S rRNA, 18S rRNA, 28S rRNA, histona H3 e ITS2). Adicionalmente, Anthinus Albers, 1850 e Gonyostomus H. Beck, 1837, anteriormente alocados em Strophocheilidae, foram transferidos para Odontostomidae com base em afinidade molecular e morfo-anatômica com Odontostomus. Macrodontes Swainson, 1840 e Macrodontopsis Thiele, 1931 são tratados como sinônimos júnior de Odontostomus; Gonyostoma Swainson, 1840 é sinônimo júnior de Gonyostomus.

A distribuição geográfica da família é quase exclusivamente brasileira: dos três gêneros válidos, todos têm centro de diversidade no Brasil, com extensões marginais para Argentina (norte de Odontostomus gargantua), Paraguai e Uruguai. Conforme Salvador et al. (2024) — checklist nacional consolidado — a família é representada no Brasil por 22 espécies nativas distribuídas em Anthinus (8 spp), Gonyostomus (4 spp) e Odontostomus (10 spp, incluindo uma com ocorrência incerta).

Características da concha

Diagnose conquiliológica da família Odontostomidae
FormaConchas médias a grandes, geralmente entre 25 e 100 mm de altura. Formato tipicamente fusiforme-alongado, com voltas progressivamente expandidas e última volta amplamente desenvolvida. Odontostomus gargantua alcança os maiores tamanhos da família — até 100 mm.
EspiraTipicamente cônico-alongada, com 6 a 8 voltas em adultos. Suturas variavelmente impressas. Em Anthinus, espira mais curta e robusta; em Odontostomus e Gonyostomus, mais alongada e cônica.
AberturaCaráter diagnóstico mais marcante da família. Abertura tipicamente armada por lamelas internas, pregas ou dentes que obstruem parcial ou totalmente a entrada da concha — característica que justifica o nome familiar (do grego odon, odontos, “dente” + stoma, “boca”). A configuração das barreiras varia: Odontostomus com lamela parietal proeminente e várias barreiras palatais; Anthinus com armadura bem desenvolvida; Gonyostomus com geometria angulada distintiva (daí o nome, do grego gonia, “ângulo”). Em raros casos, a armadura está reduzida ou ausente por degeneração evolutiva.
PeristômioGeralmente espessado e refletido, frequentemente esbranquiçado, contrastando com a teleoconcha mais escura. Em Odontostomus, o peristômio adulto é fortemente espessado e ocupa parte considerável da altura da concha.
Base e umbílicoBase perfurada ou com sutura umbilical. Umbílico geralmente fechado em adultos por crescimento da columela; ocasionalmente visível em juvenis e subadultos.
ColoraçãoGeralmente uniforme — castanho-clara a marrom-escura — com ocasionais bandas espirais discretas. Anthinus multicolor apresenta padrão característico de mosaico de manchas marrons e bege sem alinhamento espiral, justificando o epíteto específico.
GenitáliaCaracterística anatômica diagnóstica: genitália extremamente alongada, com pênis, epifalo e dutos copuladores notavelmente desenvolvidos em comparação com a maioria dos pulmonados. Caráter consistentemente recuperado em análises filogenéticas como sinapomorfia da família.
MandíbulaMandíbula plicada ou sólida (sem plicas), conforme o gênero — caráter útil para distinção genérica em estudos anatômicos.

A combinação de aperture armada com lamelas e dentes e genitália extremamente alongada é a sinapomorfia central que define Odontostomidae sensu stricto. Caracteres adicionais derivados de estudos integrativos recentes incluem aspectos do complexo palial, conformação da rádula e padrões de microsculptura da protoconcha. Em Anthinus particularmente, Simone (2022) demonstrou que a anatomia interna fornece caracteres diagnósticos essenciais para distinção entre as várias espécies brasileiras — caracteres que conchas isoladas frequentemente não permitem resolver.

Meio ambiente e habitat

A família Odontostomidae apresenta forte associação com ecorregiões brasileiras de mata seca, Cerrado, Caatinga e áreas de transição com Mata Atlântica. Os principais ambientes de ocorrência incluem:

Cerrado e ambientes de transição (Brasil central): habitat principal de Anthinus, particularmente em afloramentos rochosos, áreas de mata seca, cerradão e cerrado denso. Quatro das oito espécies brasileiras de Anthinus foram descritas por Simone (2022) com base em material coletado em Minas Gerais (Unaí, Paracatu, Brasilândia de Minas) e Goiás (Formosa) — região historicamente subamostrada para a família.
Mata Atlântica do Sudeste brasileiro: habitat de Odontostomus paulista Pilsbry & Ihering, 1898 (originalmente descrita do estado de São Paulo), Anthinus multicolor (Rang, 1831) — espécie-tipo do gênero, descrita do Rio de Janeiro e São Paulo — e várias Gonyostomus, particularmente em fragmentos remanescentes do Sudeste brasileiro.
Caatinga (Nordeste brasileiro): algumas espécies de Odontostomus ocorrem em ambientes semiáridos da Caatinga, frequentemente em áreas de afloramentos calcários e carste do São Francisco. Como em outras famílias adaptadas a ambientes secos, apresentam comportamento de estivação prolongada com epifragma.
Sul do Brasil e regiões de transição: Odontostomus gargantua (Férussac, 1821) — uma das espécies mais emblemáticas da família — apresenta distribuição relativamente ampla no sul do Brasil, com extensões para Argentina e Uruguai. É a espécie-tipo do antigo gênero Macrodontes Swainson, 1840, hoje sinônimo júnior de Odontostomus.
Ilhas do litoral brasileiro: Gonyostomus insularis Leme, 1974 — espécie endêmica de ilhas costeiras brasileiras, registro insular de pequena escala dentro da fauna predominantemente continental da família.

Várias espécies da família, particularmente as do Cerrado e da Caatinga, apresentam comportamento de estivação em períodos secos, com o animal selando a abertura da concha por epifragma — comportamento facilitado pelas barreiras aperturais armadas, que reduzem a perda de umidade durante longos períodos de inatividade. Em Odontostomus, a combinação de barreiras aperturais bem desenvolvidas e peristômio espessado torna a concha excepcionalmente resistente ao ressecamento, permitindo sobrevivência em estações secas prolongadas.

Os Odontostomidae são tipicamente saxícolas e epígeos, encontrados sob pedras, em fendas de afloramentos rochosos, na base de cactáceas e bromeliáceas, e em folhiço seco. Espécies de Anthinus e Odontostomus são frequentemente encontradas em paredes de afloramentos calcários, aderidas com a abertura selada durante a estação seca.

Sistemática e taxonomia recente

A taxonomia de Odontostomidae passou por profunda reorganização entre 2010 e 2024, em três etapas sucessivas que transformaram radicalmente o conceito da família.

Etapa 1 — Elevação ao nível familiar (Breure et al. 2010). Na revisão filogenética baseada em sequências de 28S rRNA, Breure, Groenenberg & Schilthuizen (2010) elevaram Odontostomini ao nível familiar — Odontostomidae — separando-a definitivamente de Bulimulidae sensu lato. Nessa concepção inicial, a família mantinha os gêneros tradicionais herdados de Pilsbry: Odontostomus, Cyclodontina, Bahiensis, Clessinia, Burringtonia, Moricandia, Plagiodontes, Anostoma, Tomigerus e seus aliados.

Etapa 2 — Descrição de Cyclodontinidae (Salvador & Breure 2023). Em junho de 2023, Salvador & Breure publicaram em PLoS ONE análise filogenética molecular que demonstrou a parafilia de Odontostomidae sensu lato. Os autores descreveram Cyclodontinidae como família nova para acomodar os antigos Cyclodontinini sul-americanos — gêneros adaptados a ambientes secos da Caatinga, Cerrado e Pampa. Os seguintes gêneros foram transferidos: Cyclodontina (gênero-tipo da nova família), Bahiensis, Burringtonia, Clessinia (com sinonimização de Spixia Pilsbry & Vanatta), Moricandia, Plagiodontes e Ventania.

Etapa 3 — Ressurreição de Tomogeridae (Salvador et al. 2023). No mesmo periódico e pouco depois, Salvador, Silva, Cavallari, Köhler, Slapcinsky & Breure (2023) ressuscitaram Tomogeridae Jousseaume, 1877 — nome familiar antigo, em desuso por mais de cento e quarenta anos — para acomodar os “caracóis com aberturas voltadas para cima” e gêneros aliados. Foram transferidos: Anostoma, Tomigerus, Hyperaulax, Biotocus e Clinispira. No mesmo trabalho, a família Odontostomidae sensu stricto — agora reduzida a Odontostomus, Anthinus e Gonyostomus — foi removida da superfamília Orthalicoidea e transferida provisionalmente para Rhytidoidea sensu lato. Adicionalmente, Anthinus e Gonyostomus, anteriormente classificados em Strophocheilidae, foram transferidos para Odontostomidae com base em afinidades moleculares e anatômicas com Odontostomus.

As sinonimizações genéricas confirmadas por Salvador et al. (2023) incluem: Macrodontes Swainson, 1840 e Macrodontopsis Thiele, 1931 como sinônimos júnior de Odontostomus Beck, 1837; Gonyostoma Swainson, 1840 como sinônimo júnior de Gonyostomus Beck, 1837. Adicionalmente, Pantagruelina Forcart, 1946 é tratada como sinônimo objetivo de Burringtonia Parodiz, 1944 (este último em Cyclodontinidae).

Trabalhos complementares importantes incluem o catálogo de tipos da Bothriembryontidae e Odontostomidae no Natural History Museum de Londres por Breure & Ablett (2012); o trabalho de Cuezzo & Pizá (2017) sobre Ventania avellanedae, espécie endêmica do Sistema de Ventania (Argentina), redescrita conquiologicamente e anatomicamente; e particularmente o trabalho de Simone (2022) em PLoS ONE, “Additions to the genus Anthinus occurring in Minas Gerais and Goiás regions, Brazil, with description of five new species” — embora este trabalho ainda tenha alocado Anthinus em Strophocheilidae, contribuiu com quatro espécies novas (A. synchondrus, A. vailanti, A. morenus, A. savanicus) que hoje compõem o contingente atualizado do gênero em Odontostomidae conforme Salvador et al. (2024).

Os três gêneros válidos

A família Odontostomidae compreende atualmente três gêneros válidos viventes, todos predominantemente brasileiros:

Odontostomidae — gêneros válidos
Odontostomus H. Beck, 1837
Gênero-tipo da família. Brasil (centro de diversidade), com extensões para Argentina, Uruguai e Paraguai. 10 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024), incluindo uma com ocorrência incerta. Inclui sinônimos Macrodontes Swainson, 1840 e Macrodontopsis Thiele, 1931. Espécies-chave: O. odontostoma (Sowerby, 1824) — espécie-tipo do gênero, O. gargantua (Férussac, 1821) — entre as maiores espécies da família (até ~100 mm), O. paulista Pilsbry & Ihering, 1898, O. dautzenbergianus Pilsbry, 1898, O. degeneratus Pilsbry, 1898. Conchas alongadas, fusiformes, com aperture fortemente armada por lamelas e dentes.
Anthinus Albers, 1850
Brasil (Cerrado, Mata Atlântica e ambientes de transição). 8 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024). Anteriormente classificado em Strophocheilidae; transferido para Odontostomidae por Salvador et al. (2023). Espécie-tipo: Helix (Cochlogena) multicolor Rang, 1831, do Rio de Janeiro/São Paulo. Espécies-chave: A. multicolor, A. albolabiatus (Jaeckel, 1927), A. myersii (Sowerby, 1838), A. turnix (Gould, 1846), e quatro espécies novas descritas por Simone (2022) — A. synchondrus, A. vailanti, A. morenus, A. savanicus — todas de Minas Gerais e Goiás. Conchas com cerca de 30–50 mm, padrão cromático tipicamente em mosaico.
Gonyostomus H. Beck, 1837
Brasil. 4 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024). Anteriormente classificado em Strophocheilidae; transferido para Odontostomidae por Salvador et al. (2023). Inclui sinônimo Gonyostoma Swainson, 1840. Espécie-tipo: Gonyostomus goniostomus (Férussac, 1821). Espécies-chave: G. goniostomus [= Limnaeus papyraceus Spix, 1827], G. egregius (Pfeiffer, 1845) [= Bulimus hybridus Gould, 1846], G. elinae Simone, 2016, G. insularis Leme, 1974 (esta última endêmica de ilhas costeiras brasileiras). Nome derivado do grego “boca-angulada”, referência à conformação característica da abertura.

Distribuição geográfica geral

A família Odontostomidae sensu stricto tem distribuição quase exclusivamente brasileira, com extensões marginais para países sul-americanos vizinhos. Conforme Salvador et al. (2024), a totalidade das 22 espécies viventes da família ocorre em território brasileiro:

Brasil: centro absoluto de diversidade da família. Os três gêneros são endêmicos ou centrados em território brasileiro, com diversidade especial concentrada no Sudeste (Mata Atlântica de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), Centro-Oeste (Cerrado de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul) e Nordeste (áreas calcárias da Caatinga e do São Francisco). As espécies de Anthinus recentemente descritas por Simone (2022) reforçam o papel da região de Minas Gerais/Goiás como área-chave de diversidade do gênero.

Argentina, Uruguai, Paraguai: extensões marginais de algumas espécies de Odontostomus, particularmente O. gargantua, em áreas de transição com o sul do Brasil. Odontostomus tenuisculptus Parodiz, 1963, originalmente descrita da Colômbia, é considerada por Salvador et al. (2024) como tendo ocorrência incerta no Brasil — listada com o símbolo ‡.

Ilhas costeiras brasileiras: habitat exclusivo de Gonyostomus insularis Leme, 1974, registro insular de pequena escala dentro da fauna predominantemente continental da família.

Espécies brasileiras válidas

A composição abaixo segue estritamente Salvador et al. (2024) — checklist nacional consolidado dos gastrópodes terrestres do Brasil — e totaliza 22 espécies em 3 gêneros. Sinônimos relevantes são fornecidos entre colchetes; espécies com ocorrência incerta no Brasil são marcadas com o símbolo ‡.

Gênero Odontostomus H. Beck, 1837 — 10 espécies

Gênero Anthinus Albers, 1850 — 8 espécies

Gênero Gonyostomus H. Beck, 1837 — 4 espécies

A lista totaliza 22 espécies em 3 gêneros e segue estritamente Salvador et al. (2024). Os gêneros anteriormente alocados em Odontostomidae em sentido amplo — Cyclodontina, Bahiensis, Burringtonia, Clessinia, Moricandia, Plagiodontes, Anostoma, Tomigerus, Hyperaulax, Biotocus e Clinispira — foram transferidos para Cyclodontinidae ou Tomogeridae, conforme as reorganizações de 2023 (Salvador & Breure 2023; Salvador et al. 2023).

Casos especiais de interesse e conservação

A família Odontostomidae sensu stricto apresenta vários casos notáveis em malacologia brasileira:

Reorganização sistemática profunda — caso emblemático em malacologia neotropical: a redução de Odontostomidae sensu lato (com mais de uma dúzia de gêneros e cento e cinquenta espécies) para Odontostomidae sensu stricto (com 3 gêneros e 22 espécies brasileiras) é um dos casos mais notáveis de revisão sistemática em malacologia neotropical. As reorganizações de 2023 demonstram como a aplicação rigorosa de filogenia molecular pode redefinir limites familiares estabelecidos por décadas, com impacto direto sobre catálogos nacionais e conhecimento da diversidade.
Quatro espécies novas de Anthinus em 2022: Simone (2022) descreveu quatro espécies novas de Anthinus com base em material coletado em Minas Gerais (Unaí, Paracatu, Brasilândia de Minas) e Goiás (Formosa) — duplicando o número de espécies previamente conhecidas no gênero. O trabalho integrativo combinou conchologia detalhada com anatomia interna (sistema reprodutor, complexo palial, rádula), demonstrando como áreas brasileiras subamostradas — particularmente o Cerrado mineiro e goiano — ainda guardam diversidade malacológica significativa.
Odontostomus gargantua — gigantismo na família: espécie emblemática descrita por Férussac em 1821 com base em material brasileiro, alcança até cerca de 100 mm de altura — entre os maiores Odontostomidae conhecidos. Seu nome específico evoca o personagem de Rabelais (Gargantua), referência literária ao gigantismo da espécie. Foi a espécie-tipo do gênero Macrodontes Swainson, 1840 — hoje sinônimo júnior de Odontostomus.
Tautônimos malacológicos brasileiros: a família contribui com dois tautônimos clássicos da malacologia neotropical — Odontostomus odontostoma (Sowerby, 1824), espécie-tipo do gênero, e Gonyostomus goniostomus (Férussac, 1821), também espécie-tipo. Ambos seguem a tradição linneana de marcar a espécie-tipo de um gênero com epíteto idêntico ao nome genérico (em formatos diferentes) — prática comum em malacologia setecentista e oitocentista.
Endemismo brasileiro consolidado: a família é hoje praticamente exclusiva do Brasil, com 100% das espécies viventes ocorrendo em território nacional. Esse fato confere à fauna brasileira responsabilidade absoluta pela conservação da família — qualquer perda de habitat afeta diretamente a totalidade da diversidade familiar mundial. As áreas-chave para conservação incluem fragmentos remanescentes de Mata Atlântica do Sudeste, Cerrado de Minas Gerais e Goiás, e áreas calcárias da Caatinga.

Importância e conservação

Endemismo brasileiro absoluto. Conforme Salvador et al. (2024), a totalidade das espécies viventes da família ocorre no Brasil, conferindo à fauna nacional responsabilidade integral pela conservação dos Odontostomidae globais. Várias espécies têm distribuição extremamente restrita, frequentemente limitada a fragmentos florestais isolados ou afloramentos rochosos específicos.

Pressão sobre o Cerrado mineiro e goiano. A descoberta de quatro novas espécies de Anthinus por Simone (2022), todas do Cerrado de Minas Gerais e Goiás, sublinha a importância biológica de áreas frequentemente sob pressão de expansão agropecuária. A conversão do Cerrado para monoculturas e pastagens ameaça populações de espécies que sequer foram catalogadas formalmente — risco elevado de “extinção em massa silenciosa” antes de descrição científica.

Importância para sistemática integrativa. A reorganização recente da família demonstra a importância da aplicação rigorosa de filogenia molecular em paralelo com revisões morfo-anatômicas tradicionais. Os casos de Anthinus e Gonyostomus — transferidos de Strophocheilidae para Odontostomidae em 2023 — exemplificam como caracteres anatômicos clássicos (genitália alongada) e dados moleculares convergem para estabelecer limites familiares mais robustos.

Importância ecológica. Como gastrópodes terrestres adaptados a ambientes secos e semiáridos brasileiros, os Odontostomidae participam de processos ecológicos importantes — decomposição de matéria orgânica em afloramentos rochosos, ciclagem de nutrientes em mata seca e Cerrado, e fornecimento de presa para aves, répteis e mamíferos insetívoros.

Notas sobre coleta e conservação

Os Odontostomidae são tipicamente encontrados sob pedras, em fendas de afloramentos rochosos, na base de cactáceas e bromeliáceas, e em folhiço seco. Em estação chuvosa, os animais saem dos refúgios para alimentação e reprodução; na estação seca, retraem-se profundamente nos abrigos e selam a abertura com epifragma. Em Anthinus e Odontostomus, a combinação de barreiras aperturais armadas e peristômio espessado torna a concha excepcionalmente resistente ao ressecamento.

Para coleta científica de espécies brasileiras, é necessária autorização SISBio do ICMBio. Áreas em parques nacionais, reservas biológicas, terras indígenas e unidades de conservação estaduais têm restrições específicas adicionais. Espécies recentemente descritas por Simone (2022) — A. synchondrus, A. vailanti, A. morenus, A. savanicus — têm material-tipo depositado no Museu de Zoologia da USP (MZSP) e merecem coleta dirigida em suas localidades-tipo para ampliação do conhecimento sobre distribuição e variação intra-específica.

Referências principais

Salvador R. B., Miranda M. S., Silva F. S., Oliveira C. D. C., Arruda J. O., Cavallari D. C., Gomes S. R., La Pasta A., Pena M. S., Ovando X. M. C., Rosa R. M., Salles A. C. A., Santos S. B., Simone L. R. L. & Machado F. M. 2024. — Checklist of the terrestrial gastropods of Brazil. Journal of Conchology 45(2): 142–185. DOI: https://doi.org/10.61733/jconch/4516referência primária para a malacofauna brasileira; consolidação do TCBF.

Salvador R. B., Silva F. S., Cavallari D. C., Köhler F., Slapcinsky J. & Breure A. S. H. 2023. — Molecular phylogeny of the Orthalicoidea land snails: further support and surprises. PLoS ONE 18(7): e0288533. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0288533filogenia molecular abrangente; ressurreição de Tomogeridae; transferência de Odontostomidae para Rhytidoidea; transferência de Anthinus e Gonyostomus para a família.

Salvador R. B. & Breure A. S. H. 2023. — Molecular phylogeny of Cyclodontina Beck, 1837 (Mollusca, Gastropoda, Orthalicoidea), with description of a new family for southern South American snails. PLoS ONE 18: e0288533. — descrição de Cyclodontinidae como família nova.

Simone L. R. L. 2022. — Additions to the genus Anthinus occurring in Minas Gerais and Goiás regions, Brazil, with description of five new species, one of them in the new related genus Catracca (Gastropoda, Eupulmonata, Strophocheilidae). PLoS ONE 17(8): e0273067. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0273067descrição de quatro novas espécies brasileiras de Anthinus (à época em Strophocheilidae).

Simone L. R. L. 2016. — A new genus and species of pulmonate snail in the Atlantic Rainforest of Brazil (Mollusca: Gastropoda: Stylommatophora). Iheringia, Série Zoologia 106: e2016015. — descrição de Gonyostomus elinae.

Cuezzo M. G. & Pizá J. 2017. — Redescription of Ventania avellanedae (Stylommatophora: Odontostomidae), a land snail endemic to the Ventania Mountain System, Argentina. Zoologia (Curitiba).

Breure A. S. H. & Ablett J. D. 2012. — Annotated type catalogue of the Bothriembryontidae and Odontostomidae (Mollusca, Gastropoda, Orthalicoidea) in the Natural History Museum, London. ZooKeys 182: 1–70. DOI: https://doi.org/10.3897/zookeys.182.2720

Breure A. S. H., Groenenberg D. S. J. & Schilthuizen M. 2010. — New insights in the phylogenetic relations within the Orthalicoidea (Gastropoda: Stylommatophora) based on 28S sequence data. Basteria 74: 25–31. — elevação de Odontostomini ao nível familiar.

Salvador R. B. & Cavallari D. C. 2019. — Taxonomic revision of the genus Hyperaulax Pilsbry, 1897 (Gastropoda, Stylommatophora, Odontostomidae). Zoosystematics and Evolution 95(2): 453–463. — revisão de Hyperaulax (à época em Odontostomidae, transferida para Tomogeridae em 2023).

Bequaert J. C. 1948. — Monograph of the Strophocheilidae, a Neotropical family of terrestrial mollusks. Bulletin of the Museum of Comparative Zoology 100: 1–210. — monografia clássica que tratou Anthinus e Gonyostomus em Strophocheilidae.

Pilsbry H. A. 1901–1902. — Manual of Conchology, second series, Pulmonata. Vol. 14: Oriental Bulimoid Helicidae; Odontostomidae; Cerionidae. Academy of Natural Sciences of Philadelphia. — monografia clássica.

Pilsbry H. A. & Vanatta E. G. 1898. — Revision of the South American Odontostominae. Proceedings of the Academy of Natural Sciences of Philadelphia 50: 198–210. — descrição original da família.

Simone L. R. L. 2006. — Land and freshwater molluscs of Brazil. São Paulo, EGB & FAPESP, 390p. — handbook fundamental da malacofauna brasileira.

MolluscaBase eds. 2025. — MolluscaBase. Odontostomidae Pilsbry & Vanatta, 1898. Disponível em: https://www.molluscabase.org


Conquiliologistas do Brasil · Catálogo de famílias de moluscos sul-americanos
Última atualização: abril de 2026.