70 espécies de gastrópodes terrestres e de água doce foram descritas para o Brasil entre 2016 e 2026

Setenta novas espécies de gastrópodes terrestres e de água doce foram descritas para o Brasil entre 2016 e 2026. O balanço dessa década de descobertas acaba de ser publicado em um checklist ilustrado na revista Molluscan Horizons.

Um balanço de dez anos

Publicado em 1º de outubro de 2026 por Daniel C. Cavallari, Rafael M. Rosa, Laura Ferreira-Santos, Luiz R. L. Simone e Rodrigo B. Salvador, o trabalho continua o checklist de Birckolz et al. (2016), que reuniu as espécies descritas entre 2006 e 2016.

Os números mostram um ritmo de descrição maior que o da década anterior. Foram 70 espécies novas: 58 terrestres e 12 de água doce. Isso representa um aumento de quase 67% em relação às 42 espécies do período 2006–2016. O ano mais produtivo foi 2024, com 16 descrições. Também surgiram 13 novos gêneros: Atomicus, Caerbannogia, Catracca, Habeastrum, Keranella, Koltrora (hoje considerado sinônimo de Kora), Lavajatus, Minaselates, Paradiscops, Ridleyconcha, Sanniostracus, Smenodonta e Stapafurdius.

 

O mundo subterrâneo em destaque

A tendência mais marcante da década vem das cavernas. Foram 15 espécies cavernícolas, 21% do total, contra apenas três na década anterior. Entre os destaques estão os diminutos Habeastrum omphalium e H. parafusum, provavelmente troglóbios estritos, de cavernas de Bonito (MS). Também se destaca Rectobelus arsayae, da Serra dos Carajás (PA), primeiro representante vivente de um gênero antes conhecido apenas de material arqueológico. Há ainda Caerbannogia calida, primeiro registro da família Eucalodiidae no Brasil, conhecido a partir de uma única concha vazia coletada em 2012 numa caverna de Iporanga (SP).

Os autores atribuem esse salto a três fatores: a intensificação da exploração espeleológica, o maior acesso a cavernas por conta do licenciamento ambiental de mineração e infraestrutura, e o reconhecimento crescente das cavernas como refúgios de linhagens endêmicas e relictuais.

 

Água doce e microgastrópodes

As espécies de água doce passaram de 3 para 12. Parte delas vem de ambientes pouco explorados. Uma fonte termal na Chapada dos Veadeiros (GO) revelou de uma só vez Atomicus inopinatus, Heleobia apua e H. pukua. Cinco novas espécies de Idiopyrgus foram descritas, em boa parte de cavernas da Bahia. Um estudo filogenético mostrou que esse gênero relictual pertence à família Tomichiidae, ao lado de outros relictos do sul da África e da Austrália.

Os microgastrópodes, com conchas menores que 5 mm, também ganharam atenção. Os exemplos incluem duas novas Gastrocopta da Caatinga paraibana, um novo Radiodiscus da Mata Atlântica alagoana e a revisão em curso da família Scolodontidae, que gerou três novos gêneros. Ainda assim, os autores alertam que o grupo continua muito subestimado no país, pela escassez de coletas com peneiramento e flotação de serapilheira e solo.

 

Minas Gerais e Bahia na liderança

Quase metade das localidades-tipo está em Minas Gerais (17 espécies) e na Bahia (16). O padrão se explica pelas extensas áreas cársticas com alto endemismo, pelo encontro de três grandes biomas (Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica) e pelo esforço contínuo de coleta em afloramentos calcários e sistemas de cavernas. Em contraste, a Amazônia e grandes porções do Cerrado e da Caatinga seguem subamostradas.

 

Novas famílias, sinonímias e uma nova combinação

A superfamília Orthalicoidea continua sendo a mais rica em novidades, com 23 espécies (33% do total). Estudos filogenéticos moleculares reorganizaram sua classificação, e quatro famílias recém-reconhecidas são, até o momento, endêmicas do Brasil: Auriidae, Koridae, Orphaicidae e Tomogeridae.

O artigo traz também um ato nomenclatural próprio. Ao ressuscitar o gênero Orphaicus para abrigar os antigos “Thaumastus” brasileiros, um trabalho anterior deixou de listar Thaumastus teixeirensis. A lacuna foi corrigida com a nova combinação Orphaicus teixeirensis (Simone, Gernet & Pinheiro, 2025) comb. nov. A espécie é conhecida apenas de um sambaqui na Ilha do Teixeira, em Paranaguá (PR), e é presumivelmente extinta.

 

Um trabalho que está longe do fim

Os autores destacam o papel do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), que hoje lista mais de 3.500 espécies válidas de moluscos no país e foi a base para integrar e padronizar as descobertas. O alerta final é claro. No ritmo atual, de seis a sete espécies por ano, levaria várias décadas para documentar a fauna brasileira de gastrópodes terrestres e de água doce. Diante das ameaças aos ambientes naturais e do alto risco de extinção dos moluscos, essa tarefa é urgente.

 

Referência

Cavallari, D. C.; Rosa, R. M.; Ferreira-Santos, L.; Simone, L. R. L. & Salvador, R. B. (2026). Illustrated checklist of newly described (2016–2026) land and freshwater Gastropoda from Brazil: reports on a decade of discoveries. Molluscan Horizons, 1: e260107. Acesse o artigo (PDF, acesso aberto).

 

Foto: Cavallari et al. 2026: Molluscan Horizons, licença CC BY 4.0

Compartilhe

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *