Curiosidades • Mollusca

Qual o Maior Molusco Vivo?

A resposta depende de como se mede: em comprimento, em massa ou em tamanho da concha? Conheça os gigantes do filo Mollusca — e descubra que o Brasil também tem o seu recordista.

 

Uma Pergunta, Três Respostas

Quando alguém pergunta “qual o maior molusco do mundo?”, a resposta mais completa exige distinguir três critérios: comprimento total, massa corporal e tamanho da concha. Cada um desses parâmetros aponta para um campeão diferente dentro do filo Mollusca — e os três são verdadeiramente impressionantes.

Maior em comprimento

Architeuthis dux

Lula-gigante

≈ 13 m

Comprimento total máximo documentado (fêmeas), incluindo tentáculos alimentares

 

Maior em massa

Mesonychoteuthis hamiltoni

Lula-colossal

495 kg

Peso confirmado do maior espécime capturado (Mar de Ross, 2007)

 

Maior concha de bivalve

Tridacna gigas

Bénitier / Giant clam

≈ 1,5 m

Comprimento da concha, com peso total do animal podendo atingir 340 kg

 

Maior molusco do Brasil (com concha)

Adelomelon beckii

Família Volutidae

≈ 50 cm

Maior gastrópode brasileiro, encontrado no sul e sudeste do país

 

A Lula-Gigante: Architeuthis dux Steenstrup, 1857

A lula-gigante é o molusco mais longo do planeta e um dos animais mais lendários do oceano — historicamente associada ao Kraken da mitologia nórdica e ao monstro marinho do Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne (1870). Pertence à família Architeuthidae e, apesar de relatos antigos falarem em 18 ou até 20 metros, estudos modernos baseados em espécimes medidos cientificamente indicam que o comprimento total máximo é de cerca de 13 metros para fêmeas e 10 metros para machos, medidos das nadadeiras posteriores até a ponta dos dois longos tentáculos alimentares.

É fundamental entender como essa medida se distribui: o manto (corpo) tem cerca de 2 metros de comprimento; o corpo total sem os tentáculos raramente excede 5 metros. Os impressionantes 13 metros são alcançados graças aos dois tentáculos alimentares, que são extremamente extensíveis e elásticos — tanto que medições de espécimes mortos podem superestimar o comprimento real em vida, pois os tentáculos se esticam post-mortem. Pesquisas genéticas recentes indicam que existe uma única espécie em todo o mundo, Architeuthis dux.

Os olhos da lula-gigante estão entre os maiores do reino animal, com diâmetro de até 27 cm — comparáveis ao tamanho de um prato de jantar. Essa adaptação permite captar a mínima luminosidade disponível nas profundezas onde habitam, entre 200 e 1.000 metros. Estudos sugerem que olhos tão grandes permitem detectar grandes formas, como as baleias cachalotes (Physeter macrocephalus), a distâncias superiores a 120 metros, mesmo na escuridão quase total do oceano profundo.

É comestível?

Não. Embora “lula frita gigante” seja uma imagem tentadora, a carne de Architeuthis (e também de Mesonychoteuthis) é imprópria para consumo. Os tecidos dessas lulas são ricos em cloreto de amônio — um composto que auxilia na flutuabilidade neutra do animal em águas profundas, mas que confere sabor extremamente desagradável.

 

Uma espécie difícil de observar

A maior parte dos espécimes conhecidos foi encontrada morta — encalhados em praias, flutuando na superfície ou no estômago de cachalotes. A primeira fotografia de uma lula-gigante adulta viva só foi obtida em 2004, por pesquisadores japoneses, a cerca de 900 metros de profundidade no Pacífico Norte. A primeira filmagem de um adulto vivo no habitat natural só veio em 2012, também realizada por equipe japonesa, em um mergulho de submersível próximo à ilha de Chichi (Japão). Ainda hoje, observações in vivo são extremamente raras.

A Lula-Colossal: Mesonychoteuthis hamiltoni Robson, 1925

Se a lula-gigante é a mais longa, a lula-colossal é a mais pesada — sendo considerada o maior invertebrado vivo em termos de massa corporal. Pertencente à família Cranchiidae (a das “lulas-de-vidro”), é o único representante do gênero Mesonychoteuthis e habita as águas profundas do Oceano Austral, em distribuição circum-antártica.

O maior espécime completo já pesado foi uma fêmea capturada no Mar de Ross em 2007, com 495 kg — hoje em exibição no Museu Te Papa Tongarewa, na Nova Zelândia. Análises de bicos encontrados em estômagos de cachalotes sugerem que indivíduos de até 600–700 kg podem existir. Diferentemente da lula-gigante, cujos tentáculos compõem a maior parte do comprimento, a lula-colossal tem corpo mais robusto e proporcionalmente mais curto: o comprimento total máximo é estimado em cerca de 6 metros (desconsiderando o esticamento post-mortem dos tentáculos), embora estimativas mais generosas falem em até 14 metros incluindo os tentáculos estendidos.

Uma característica marcante que a diferencia de Architeuthis: em vez de anéis dentados nas ventosas dos tentáculos, a lula-colossal possui ganchos giratórios afiados — verdadeiras armas de captura de presas. Seus olhos, com diâmetro estimado em 27 a 30 cm, são os maiores de qualquer animal do planeta.

A Maior Concha: Tridacna gigas (Linnaeus, 1758)

Se restringirmos a pergunta aos moluscos com concha, o campeão incontestável é Tridacna gigas, o “bénitier” ou “concha assassina” — embora este apelido seja um exagero, pois não há registros confirmados de mortes humanas causadas por esse bivalve. É o maior bivalve vivente do mundo, com conchas que podem atingir cerca de 1,5 metro de comprimento e peso total (animal + concha) de até 340 kg.

Nativa dos oceanos Pacífico e Índico, T. gigas vive associada a recifes de coral em águas rasas, mantendo uma relação simbiótica com microalgas fotossintéticas (zooxantelas) alojadas em seu manto. Essa simbiose fornece a maior parte de sua nutrição. Suas enormes valvas foram historicamente utilizadas como pias batismais em igrejas europeias — uso que deu origem ao nome “bénitier” em francês (literalmente, “pia de água benta”).

E no Brasil?

Entre os moluscos com concha encontrados na costa brasileira, o maior gastrópode é Adelomelon beckii (Broderip, 1836), da família Volutidae, cuja concha pode atingir aproximadamente 50 cm de comprimento. É um predador bentônico encontrado em águas do sul e sudeste do Brasil, constituindo uma peça de grande destaque em qualquer coleção conquiliológica.

Quanto a cefalópodes gigantes em águas brasileiras, tanto Architeuthis dux quanto lulas de grande porte de outras famílias já foram registradas ocasionalmente em encalhes e capturas acidentais ao longo da costa.

Perguntas Frequentes

 

Qual é o maior molusco do mundo?

Depende do critério. Em comprimento total, a lula-gigante (Architeuthis dux) com até 13 m. Em massa corporal, a lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni) com 495 kg confirmados. Em tamanho de concha, Tridacna gigas com até 1,5 m.
Qual é o maior molusco do Brasil?
Entre os moluscos com concha, o maior gastrópode brasileiro é Adelomelon beckii, da família Volutidae, com conchas de até 50 cm.
A lula-gigante é comestível?
Não. Os tecidos de Architeuthis dux e Mesonychoteuthis hamiltoni contêm altas concentrações de cloreto de amônio, que auxilia na flutuabilidade mas torna a carne imprópria para consumo humano.
Lula-gigante e lula-colossal são a mesma coisa?
Não. São espécies de famílias diferentes. A lula-gigante (Architeuthis dux, Architeuthidae) é mais longa e habita oceanos temperados a subtropicais em todo o mundo. A lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni, Cranchiidae) é mais pesada e robusta, restrita ao Oceano Austral (Antártica).
Qual animal tem os maiores olhos do mundo?
A lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni), com olhos de até 30 cm de diâmetro — os maiores documentados no reino animal. A lula-gigante vem logo atrás, com olhos de até 27 cm.

 

 

Referências

  1. Rosa, R., Lopes, V. M., Guerreiro, M., Bolstad, K. & Xavier, J. C. (2017). Biology and ecology of the world’s largest invertebrate, the colossal squid (Mesonychoteuthis hamiltoni): a short review. Polar Biology, 40: 1871–1883.
  2. Roper, C. F. E. & Jereb, P. (2010). Cephalopods of the world. FAO Species Catalogue for Fishery Purposes, No. 4, Vol. 2. Rome.
  3. McClain, C. R. et al. (2015). Sizing ocean giants: patterns of intraspecific size variation in marine megafauna. PeerJ, 3: e715.
  4. Te Papa Tongarewa (Museum of New Zealand). Colossal Squid specimen data.
  5. Rios, E. C. (1985). Seashells of Brasil. Fundação Cidade do Rio Grande.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *