Dois Gigantes Extintos e um Vivente

A pergunta “qual a maior concha de molusco que já existiu?” tem uma resposta que depende de como definimos “maior”: se falamos em diâmetro da concha, o campeão absoluto é uma amonita clássica, em espiral. Se falamos em comprimento linear da concha desenrolada, o título vai para uma amonita heteromorfa com formato de clipe de papel. E se restringirmos a pergunta aos moluscos viventes, o recordista é um bivalve dos recifes do Indo-Pacífico. Vamos conhecer os três.

 

Critério Espécie Recorde Período
Maior diâmetro (concha em espiral) Parapuzosia seppenradensis 1,8 m encontrado (estimado ~2,5 m completo) Cretáceo Superior (extinta)
Maior comprimento linear (concha heteromorfa) Diplomoceras maximum 1,5 m dobrada / >4 m desenrolada Cretáceo Superior (extinta)
Maior concha de molusco vivente Tridacna gigas ≈ 1,5 m / até 340 kg (animal + concha) Atual

A Maior Amonita: Parapuzosia seppenradensis (Landois, 1895)

A maior concha de molusco que já existiu, em termos de diâmetro, pertenceu à amonita Parapuzosia seppenradensis — um cefalópode com concha externa em espiral que viveu durante o Campaniano inferior do Cretáceo Superior, há aproximadamente 80 milhões de anos.

O espécime mais famoso foi descoberto em 1895 em uma pedreira perto de Seppenrade, na Vestfália, Alemanha. Mesmo incompleto (a câmara de habitação não foi preservada inteira), o fóssil mede 1,8 metro de diâmetro. Estimativas indicam que, se completo, o diâmetro teria sido de aproximadamente 2,55 metros — embora um estudo de 2021 (Ifrim et al., PLoS ONE) tenha revisado esse valor para cerca de 2 metros para os maiores espécimes. O fóssil original está em exibição no Museu de História Natural da Vestfália (LWL-Museum für Naturkunde) em Münster, Alemanha, e é o símbolo do museu.

📏 Para ter uma ideia da escala
Um estudo clássico de 1898 estimou a massa total do animal vivo em cerca de 1.455 kg — dos quais 705 kg seriam da concha. Uma revisão de 2025 recalculou o peso corporal em cerca de 400 kg com base no volume da concha, o que ainda o colocaria entre os cefalópodes mais pesados de todos os tempos. A concha continha cerca de 700 litros de ar em suas câmaras, mantendo o animal flutuante.

Parapuzosia seppenradensis pertence à família Desmoceratidae e evoluiu a partir de uma espécie ancestral menor, Parapuzosia leptophylla, que atingia “apenas” 1 metro de diâmetro. A revisão de Ifrim et al. (2021), baseada em 154 espécimes da Inglaterra e do México, demonstrou um aumento gradual de tamanho ao longo do Santoniano-Campaniano, com os maiores diâmetros sendo atingidos no Campaniano médio. A concentração de conchas adultas em áreas geográficas restritas sugere que esses gigantes podem ter migrado para locais específicos de reprodução — semelhante ao que fazem as lulas e sépias modernas.

Além do espécime alemão, fósseis de Parapuzosia foram encontrados na Inglaterra, México, Texas, Montana e Bulgária. O maior espécime norte-americano, encontrado no México, tem diâmetro estimado em 2 metros — o segundo maior do mundo.

O “Clipe de Papel” Gigante: Diplomoceras maximum Olivero & Zinsmeister, 1989

Se o post original do CdB mencionava Diplomoceras maximum, era com razão — mas essa espécie merece uma explicação mais detalhada. Diferentemente da espiral compacta de Parapuzosia, Diplomoceras é uma amonita heteromorfa — isto é, com concha de formato “anormal”, que se desviou da espiral plana clássica.

A concha de Diplomoceras maximum tinha formato notavelmente semelhante a um clipe de papel gigante: tubular, com pelo menos quatro hastes paralelas conectadas por curvas em U. O espécime mais completo conhecido, encontrado na Formação López de Bertodano na Ilha Seymour (próxima à Península Antártica), mede 1,5 metro dobrado e mais de 4 metros de comprimento se desenrolado. A câmara de habitação, onde vivia o animal, tinha mais de 1 metro de comprimento. Este fóssil extraordinário está em exibição no Museum of the Earth, em Ithaca, Nova York (PRI 13889).

Diplomoceras maximum viveu no Maastrichtiano (último andar do Cretáceo Superior), há cerca de 68–66 milhões de anos, e foi extinta pela grande extinção do Cretáceo-Paleógeno — o mesmo evento que eliminou os dinossauros não avianos. Fósseis do gênero foram encontrados em todos os continentes, mas os maiores espécimes vêm da Antártica.

🕰️ 200 anos de vida?
Análises das costelas (anéis de crescimento) da concha sugerem que cada costela representa um ano de crescimento. Com base nessa contagem, Diplomoceras maximum pode ter vivido mais de 200 anos — um dos maiores tempos de vida estimados para qualquer cefalópode.

A ecologia de Diplomoceras permanece debatida. Análises isotópicas do carbono e oxigênio da concha indicam que o animal viveu em águas de fundo, com valores semelhantes aos de moluscos bentônicos da mesma formação geológica. Outros pesquisadores sugerem que pode ter flutuado passivamente na coluna d’água.

A Maior Concha Vivente: Tridacna gigas (Linnaeus, 1758)

Se considerarmos apenas moluscos viventes, a maior concha pertence ao bivalve Tridacna gigas — popularmente conhecido como “concha assassina” ou “bénitier” (pia batismal, em francês). Com conchas que podem atingir cerca de 1,5 metro de comprimento e peso total (animal + concha) de até 340 kg, é o maior bivalve do mundo atual.

Nativa dos oceanos Pacífico e Índico, T. gigas vive em recifes de coral rasos, onde mantém simbiose com microalgas fotossintéticas (zooxantelas). Apesar do apelido assustador, não há registros confirmados de mortes humanas — a concha se fecha muito lentamente para representar perigo real.

Suas enormes valvas foram historicamente usadas como pias batismais em igrejas europeias, e exemplares de T. gigas podem ser vistos em catedrais de Paris a Roma.

E no Brasil?

Entre os moluscos com concha encontrados em território brasileiro, o maior gastrópode é Adelomelon beckii (Broderip, 1836), da família Volutidae, com conchas que podem alcançar aproximadamente 50 cm de comprimento. É uma espécie bentônica predadora encontrada no sul e sudeste do Brasil — e uma das peças mais impressionantes em coleções conquiliológicas nacionais.

Quanto a fósseis, amonitas de grande porte são conhecidas em formações cretáceas brasileiras, como a Formação Cotinguiba (Sergipe), embora nenhuma atinja as dimensões extremas de Parapuzosia ou Diplomoceras.

Perguntas Frequentes

Qual é a maior concha de molusco que já existiu?

Em diâmetro de concha, a amonita Parapuzosia seppenradensis — com fóssil de 1,8 m de diâmetro e diâmetro estimado completo de até 2,55 m. Em comprimento linear, Diplomoceras maximum, cuja concha em formato de clipe de papel ultrapassa 4 metros quando desenrolada.

O que eram as amonitas?

Amonitas (ou amonoides) eram cefalópodes marinhos com concha externa, aparentados dos atuais nautilos, lulas e polvos. Existiram do Devoniano ao final do Cretáceo (cerca de 370 a 66 milhões de anos) e são um dos grupos de fósseis mais importantes para a datação de rochas sedimentares.

Qual a maior concha de molusco vivente?

Tridacna gigas (Linnaeus, 1758), o bivalve gigante dos recifes do Indo-Pacífico, com conchas de até 1,5 metro e peso total de até 340 kg.

Qual a maior concha de molusco do Brasil?

O gastrópode Adelomelon beckii (Broderip, 1836), da família Volutidae, com conchas de até 50 cm. É encontrado no sul e sudeste do país.

Diplomoceras maximum vivia na Antártica?

Sim. Os maiores fósseis foram encontrados na Ilha Seymour, próxima à Península Antártica, em sedimentos do Maastrichtiano (Cretáceo Superior). Naquela época, as águas ao redor da Antártica eram mais quentes que hoje (4–12°C), mas ainda frias.

 

Referências

  1. Olivero, E. B. & Zinsmeister, W. J. (1989). Large heteromorph ammonites from the Upper Cretaceous of Seymour Island, Antarctica. Journal of Paleontology, 63(5): 626–636.
  2. Ifrim, C. et al. (2021). Ontogeny, evolution and palaeogeographic distribution of the world’s largest ammonite Parapuzosia (P.) seppenradensis. PLoS ONE, 16(11): e0258510.
  3. Landois, H. (1895). Die Riesenammoniten von Seppenrade. Jahresbericht des Westfälischen Provinzialvereins für Wissenschaft und Kunst, 23: 99–108.
  4. Zinsmeister, W. & Oleinik, A. Discovery of a remarkably complete specimen of Diplomoceras maximum from Seymour Island, Antarctica. Antarctic Journal of the United States, 30.
  5. Guinness World Records. Largest ammonite: Parapuzosia seppenradensis.
  6. Rios, E. C. (1985). Seashells of Brasil. Fundação Cidade do Rio Grande.

© Conquiliologistas do Brasil — conchasbrasil.org.br
Conteúdo atualizado em abril de 2026. Publicação original: junho de 2023.

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