Orthalicidae E. von Martens, 1860
Família Orthalicidae · Gastropoda · Stylommatophora · Orthalicoidea · Família-tipo da superfamília. Reúne os “caracóis-arborícolas-zebra” das Américas tropicais — ícones malacológicos do Caribe, América Central, Andes setentrionais e Brasil.

Sultana sultana (Dillwyn, 1817) é um representante da família Orthalicidae. Conchas grandes, fusiformes a ovaladas, frequentemente vivas em coloração e marcadas por padrões de bandas espirais e listras axiais — caracteres associados ao hábito arborícola em florestas tropicais americanas. Crédito da foto: Nereston (Nelinho) Camargo, observação iNaturalist, 19.iii.2025, Carajás, Pará, Brasil
A família Orthalicidae foi descrita por E. von Martens em 1860 e dá nome à superfamília Orthalicoidea. Reúne onze gêneros viventes de gastrópodes terrestres arborícolas, com diversidade concentrada em três grandes regiões: Caribe e Flórida (Liguus, Orthalicus), Andes setentrionais e centrais (Porphyrobaphe, Hemibulimus, Sultana, Kara, Quechua, Scholvienia, Clathrorthalicus) e Brasil/América Central (Orthalicus, Corona, Sultana). No Brasil, conforme Salvador et al. (2024), a família é representada por três gêneros e dezoito espécies nativas. São conhecidos popularmente como “tree snails” ou “caracóis-zebra” — referência aos padrões cromáticos espetaculares e ao hábito de viver em troncos e ramagem.
Características gerais
Orthalicidae é família de gastrópodes pulmonados terrestres arborícolas, com distribuição estritamente neotropical e caribenha. A família foi tradicionalmente concebida em sentido amplo, abrangendo subfamílias hoje elevadas a famílias independentes — Bulimulidae (Bulimulinae elevada por Breure et al. 2010), Amphibulimidae (Amphibuliminae elevada no mesmo trabalho) e Cyclodontinidae (descrita por Salvador et al. 2023). Após essas reorganizações sucessivas, Orthalicidae sensu stricto compreende atualmente onze gêneros viventes, que correspondem ao núcleo morfológico tradicional dos “tree snails” das Américas.
A família caracteriza-se por conchas grandes a muito grandes (frequentemente entre 40 e 100 mm, podendo alcançar mais de 100 mm em Sultana yatesi), forma ovalada-fusiforme com última volta amplamente expandida, abertura ovalada com peristômio simples ou espessado, e padrões cromáticos vívidos — bandas espirais, listras axiais em chamas, ou combinações fasciadas que tornaram esses gastrópodes objeto histórico de coleção e fascínio. O hábito arborícola é característica universal da família: vivem em troncos, galhos, copas e folhagem de florestas tropicais úmidas, alimentando-se de fungos, líquens e algas escrapados das cascas.
A análise filogenética molecular conduzida por Salvador et al. (2023) em PLoS ONE, com base em múltiplos marcadores mitocondriais e nucleares, recuperou Orthalicidae como clado monofilético com suporte fraco (probabilidade posterior 0,55), grupo-irmão de Amphibulimidae. Os autores notaram explicitamente que estudos futuros podem vir a unir ambas as famílias sob o nome mais antigo, Orthalicidae. Por estabilidade taxonômica e por corresponder a diferenças morfológicas reconhecíveis, a separação é mantida atualmente. O mesmo trabalho identificou que o gênero-tipo Orthalicus é parafilético e necessita revisão genérica abrangente.
A distribuição geográfica da família é eminentemente neotropical e caribenha, com três grandes polos de diversidade: (1) Liguus e Orthalicus nas Antilhas Maiores (Cuba, Hispaniola) e sul da Flórida; (2) Sultana, Porphyrobaphe, Hemibulimus, Kara, Quechua, Scholvienia e Clathrorthalicus concentrados nos Andes setentrionais e centrais (Equador, Peru, Colômbia, Bolívia); e (3) Orthalicus, Corona e Sultana com presença na Mata Atlântica brasileira, Amazônia e América Central. O contingente brasileiro, consolidado por Salvador et al. (2024), é representado por Orthalicus (9 espécies), Corona (7 espécies) e Sultana (2 espécies), totalizando dezoito espécies nativas distribuídas em três gêneros.
Características da concha
Diagnose conquiliológica da família Orthalicidae
FormaConcha grande a muito grande, geralmente entre 40 e 100 mm de altura. Excepcionalmente até 116 mm em Sultana yatesi. Formato ovalado-fusiforme com última volta amplamente expandida; espira moderadamente alta a baixa.
EspiraTipicamente cônica, com 5 a 7 voltas em adultos. Suturas variavelmente impressas. Em Liguus, espira proeminente e relativamente alta, dando à concha contorno “torre”; em Orthalicus e Sultana, espira mais baixa e arredondada.
Direção do enrolamentoMaioria dextral. Notável exceção: Corona perversa e congêneres, com concha sinistral (enrolada em sentido horário) — caráter que dá nome ao gênero (do latim, “voltado”).
AberturaAmpla, ovalada-alongada, ocupando geralmente metade ou mais da altura total da concha. Sem barreiras aperturais — caráter compartilhado com Amphibulimidae e que separa a família dos Cyclodontinidae e Tomogeridae (famílias-irmãs com aberturas armadas).
PeristômioSimples ou ligeiramente espessado, frequentemente refletido em adultos. Cor do peristômio é caráter útil para distinção em Orthalicus: branco, marrom-escuro ou rosado conforme a espécie.
ColoraçãoCaracterística diagnóstica mais marcante da família. Padrões fasciados (bandas espirais alternadas), listras axiais em chamas, manchas irregulares e combinações cromáticas vívidas — castanho, alaranjado, amarelo, branco, verde-oliva. Liguus fasciatus apresenta mais de 70 formas cromáticas reconhecidas em Cuba e ~58 na Flórida.
EsculturaGeralmente fina ou ausente em adultos — superfície polida e brilhante em Liguus; com estrias axiais em Orthalicus; com microsculptura espiral em Porphyrobaphe. A protoconcha tipicamente apresenta escultura espiral fina ou pontuações organizadas — caráter útil para identificação genérica.
A ausência de barreiras aperturais é o caráter mais imediatamente útil para distinguir Orthalicidae das famílias-irmãs Cyclodontinidae e Tomogeridae, ambas com aberturas armadas. Em compensação, os Orthalicidae frequentemente exibem padrões cromáticos muito mais elaborados — característica relacionada ao hábito arborícola em florestas tropicais, onde a concha precisa equilibrar visibilidade reduzida (camuflagem em troncos com líquens) com sinalização específica para parceiros reprodutivos.
Meio ambiente e habitat
A família Orthalicidae apresenta forte associação com florestas tropicais úmidas e ambientes arborícolas neotropicais e caribenhos. Os principais ambientes de ocorrência incluem:
Hammocks tropicais e florestas hardwood (sul da Flórida, Caribe): habitat clássico de Liguus fasciatus e várias espécies de Orthalicus. Os “hammocks” — fragmentos de mata densa elevada em meio aos Everglades — concentram historicamente a maior diversidade de formas cromáticas de Liguus da Flórida. Em Cuba, ocupam matas de hardwood semidecíduas e florestas costeiras.
Florestas andinas (Equador, Colômbia, Peru, Bolívia): centro de maior diversidade da família para a América do Sul, com Sultana, Porphyrobaphe, Hemibulimus, Kara, Quechua, Scholvienia e Clathrorthalicus. Distribuição em ampla faixa altitudinal, de florestas tropicais de baixada até florestas nubladas até cerca de 3.000 m. Os Yungas das encostas andinas orientais e os flancos amazônicos do Equador concentram endemismos notáveis.
Mata Atlântica brasileira: habitat de várias espécies de Orthalicus e Corona, em fragmentos remanescentes do Sudeste e Nordeste brasileiros. Os Orthalicus brasileiros incluem espécies de distribuição relativamente ampla na Mata Atlântica e em áreas de transição.
Florestas centro-americanas e mexicanas: distribuição importante de Orthalicus em florestas tropicais úmidas e de transição do México (Tamaulipas, Yucatán, Chiapas), Guatemala, Belize e demais países da América Central, geralmente abaixo dos 1.500 m de altitude.
Amazônia (Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela): distribuição de várias espécies de Orthalicus e Sultana em florestas amazônicas de terra firme e várzea. As espécies amazônicas tendem a apresentar padrões cromáticos mais discretos que as andinas e caribenhas.
Florestas secas neotropicais e Caatinga: alguns Orthalicus ocupam florestas secas e ambientes de transição em áreas do Brasil central e Caatinga, demonstrando flexibilidade ecológica do gênero. Nessas condições, comportamento de estivação em períodos secos é registrado.
Os Orthalicidae são tipicamente ativos durante períodos chuvosos noturnos, quando se deslocam pela vegetação em busca de alimento e parceiros reprodutivos. Durante o dia ou em períodos de baixa umidade, recolhem-se em fendas de cascas, axilas de bromélias e folhas dobradas. Espécies de Liguus, Orthalicus e Sultana são frequentemente encontradas em alturas consideráveis na vegetação — até dezenas de metros do solo, em troncos e galhos do dossel — o que complica esforços de coleta científica e ajuda a explicar por que muitas espécies foram descritas com base em poucos exemplares e permanecem mal conhecidas em sua biologia.
As preferências alimentares da família, embora variáveis, concentram-se na raspagem de fungos, líquens e algas de superfícies de cascas. Liguus fasciatus apresenta preferência marcada por árvores de casca lisa — particularmente Lysiloma latisiliquum (tamarindo-bravo), Coccoloba diversifolia (uva-de-praia) e espécies de Myrsine — característica que torna a espécie altamente dependente da composição florística específica de seus habitats.
Sistemática e taxonomia recente
A família Orthalicidae passou por significativa reorganização ao longo das últimas duas décadas. O conceito tradicional, herdado de Pilsbry e atualizado por Bouchet & Rocroi (2005), tratava Orthalicidae em sentido amplo, abrangendo várias subfamílias — Bulimulinae, Amphibuliminae, Odontostominae, Orthalicinae — distribuídas por mais de mil espécies.
A primeira revisão filogenética molecular significativa foi conduzida por Breure, Groenenberg & Schilthuizen (2010), com base em sequências de 28S rRNA. O trabalho recomendou a elevação de várias subfamílias ao nível familiar: Bulimulinae elevada a Bulimulidae (com Bulimulus, Naesiotus, Bostryx e parte de Drymaeus); Amphibuliminae elevada a Amphibulimidae (com Plekocheilus, Gaeotis, Amphibulima); e Odontostominae elevada a Odontostomidae (com Plagiodontes, Spixia, Clessinia). Essas elevações reduziram drasticamente o escopo de Orthalicidae sensu stricto.
Breure & Romero (2012) consolidaram o panorama com análise multilocus, suportando sete famílias dentro de Orthalicoidea e restringindo Orthalicidae a um clado central (com suporte moderado) contendo Orthalicus, Corona, Porphyrobaphe, Liguus, Kara, Sultana e gêneros aliados.
A revisão filogenética mais recente, conduzida por Salvador, Silva, Cavallari, Köhler, Slapcinsky & Breure (2023) em PLoS ONE, com base em filogenia molecular multi-marcador, confirmou Orthalicidae como clado monofilético com suporte fraco (probabilidade posterior 0,55), grupo-irmão de Amphibulimidae. O mesmo trabalho:
- Excluiu Odontostomidae e Vidaliellidae da Orthalicoidea, transferindo-as para Rhytidoidea;
- Descreveu Cyclodontinidae como família nova para os antigos Odontostomini sul-americanos;
- Ressuscitou Tomogeridae para acomodar Anostoma, Tomigerus, Hyperaulax e gêneros aliados;
- Confirmou que Orthalicus é parafilético e demanda revisão genérica abrangente;
- Transferiu Cortana Salvador & Simone, 2013 (gênero fóssil paleógeno do Brasil) de Orthalicidae para Amphibulimidae.
No ano seguinte, Salvador et al. (2024), em checklist nacional consolidado dos gastrópodes terrestres do Brasil publicado no Journal of Conchology, listaram para a família Orthalicidae no Brasil três gêneros — Corona, Orthalicus e Sultana — totalizando dezoito espécies nativas. Notavelmente, o gênero Aposcutalus Dutra & Leme, 1985, descrito originalmente como subgênero de Sculatus em Acta Biológica Paranaense e historicamente alocado por algumas fontes em Orthalicidae, foi posicionado pelos autores em Bulimulidae (subfamília Peltellinae). Essa colocação representa divergência em relação ao MolluscaBase, que ainda mantém Aposcutalus em Orthalicidae — esta página segue Salvador et al. (2024) para o componente brasileiro.
Trabalhos complementares importantes incluem o catálogo de tipos da Orthalicoidea no Museu de Berlim por Köhler (2007); o catálogo de tipos do Natural History Museum de Londres por Breure & Ablett (2012, 2014) e Breure, Roosen & Ablett (2022); o checklist da Orthalicidae do Equador por Borrero & Breure (2011) com cerca de 70 espécies; e a sinopse dos Orthalicoidea andinos centrais por Breure & Mogollón Ávila (2016) em ZooKeys, cobrindo Equador, Peru e Bolívia com 103 espécies tratadas.
Os onze gêneros viventes
A família Orthalicidae compreende atualmente onze gêneros viventes aceitos pelo MolluscaBase. A tabela a seguir apresenta cada gênero com sua autoria, distribuição, espécie-tipo e características diagnósticas:
Orthalicidae — gêneros viventes
Orthalicus H. Beck, 1837
Gênero-tipo da família. América Central, México (Tamaulipas, Yucatán, Chiapas), Caribe, Bolívia, Brasil — distribuição mais ampla da família. 9 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024). Espécie-tipo: Orthalicus zebra (O. F. Müller, 1774). Conhecidos como “banded tree snails” pelas bandas espirais castanhas características. Espécies-chave fora do Brasil: O. floridensis Pilsbry, 1891 (Flórida — maior tree snail da Flórida), O. reses reses (Say, 1830) (Stock Island, Flórida). Reconhecidamente parafilético; demanda revisão.
Liguus Montfort, 1810
Antilhas Maiores e Flórida. Cuba (com mais de 70 formas cromáticas), Hispaniola e sul da Flórida e Florida Keys. Cinco espécies viventes: L. virgineus (Linnaeus, 1767) — espécie-tipo, Hispaniola; L. fasciatus (O. F. Müller, 1774) — mais ampla, Cuba e Flórida, com 58 formas cromáticas reconhecidas na Flórida; L. blainianus (Cuba); L. flammellus (Cuba); L. vittatus (Cuba). Conchas brilhantes polidas, 42–68 mm, padrão “zebra” famoso. Pressão histórica de coleta intensa. Não ocorre no Brasil.
Sultana Shuttleworth, 1856
Equador, Peru, Bolívia, Colômbia, Brasil. Inclui o subgênero Sultana (Metorthalicus) Pilsbry, 1899. Espécie-tipo: Sultana sultana (Dillwyn, 1817). Cerca de 25 espécies. 2 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024). Espécies-chave fora do Brasil: S. yatesi (Pfeiffer, 1855) — pode alcançar mais de 100 mm; S. shuttleworthi; S. atramentaria; S. macandrewi; S. fraseri; S. deburghiae. Conchas robustas com lábio espessado e escultura espiral — entre os maiores Orthalicidae das Américas.
Porphyrobaphe Shuttleworth, 1856
Equador, Peru, Colômbia. Distribuição reduzida em escopo após Salvador et al. (2023), que revisaram a alocação de várias espécies tradicionalmente incluídas. Espécie-tipo: Porphyrobaphe saturnus. Conchas robustas com coloração tipicamente púrpura-castanha, daí o nome do gênero (do grego, “tingido de púrpura”). Não ocorre no Brasil conforme Salvador et al. (2024).
Corona Albers, 1850
Equador, Colômbia, América Central, Caribe, Brasil. 7 espécies brasileiras (Salvador et al. 2024). Espécie-tipo: Corona perversa (Swainson, 1821). Caráter diagnóstico distintivo: concha sinistral (enrolada em sentido horário) — única na família entre os gêneros de hábito típico. Inclui sinônimo Laeorthalicus Strebel, 1909. Conchas com bandas espirais ou coloração uniforme, 40–75 mm. Componente brasileiro inclui espécies de presença histórica significativa na Mata Atlântica e Amazônia.
Hemibulimus E. von Martens, 1885
Equador (Andes), com extensões para Colômbia. Espécie-tipo: Hemibulimus dennisoni (Reeve, 1848). Gênero pequeno com poucas espécies viventes; distinção de Porphyrobaphe e Sultana baseada em caracteres da espira e abertura. H. dennisoni é uma das espécies arbóreas andinas mais reconhecíveis pela escultura espiral característica. Não ocorre no Brasil.
Kara Strebel, 1910
Equador, Peru. Espécie-tipo: Bulimus thompsonii L. Pfeiffer, 1845, do Equador. Inclui também K. yanamensis (Morelet, 1863) e K. indentata (da Costa, 1901). Atenção: não confundir com Kora Simone, 2012 — este último é gênero brasileiro distinto, da família “Megaspiridae”, com espécies de Bahia e Minas Gerais (K. corallina, K. nigra, K. rupestris, K. arnaldoi). Não ocorre no Brasil.
Quechua Strebel, 1910
Andes peruanos. Tratado historicamente como subgênero de Thaumastus, foi elevado ao nível genérico em revisões posteriores. Espécies-chave: Q. olmosensis (Zilch, 1954), Q. salteri, Q. taulisensis. Distribuição restrita ao Peru, principalmente em florestas e ambientes secos andinos. Nome derivado da etnia Quechua, povos andinos do Peru e Bolívia. Não ocorre no Brasil.
Scholvienia Strebel, 1910
Peru, Equador. Tratado historicamente como subgênero de Thaumastus, foi elevado ao nível genérico em revisões posteriores. Inclui sinônimo Thomsenia Strebel, 1910 (sinonimização confirmada por Breure & Mogollón Ávila, 2016). Aproximadamente 12 espécies. Espécies-chave: S. alutacea (Reeve, 1850), S. brephoides (d’Orbigny, 1835), S. jaspidea (Morelet, 1863), S. iserni, S. weyrauchi. Não ocorre no Brasil.
Clathrorthalicus Strebel, 1909
Equador, Peru, Colômbia. Espécie-tipo: Orthalicus wallisi Strebel, 1909, por designação original. Inclui também C. corydon (Crosse, 1869) — combinação nova de Breure & Mogollón Ávila (2016) — e C. magnificus (Pfeiffer, 1848), alocada tentativamente neste gênero por Breure & Ablett (2014). Conchas robustas com escultura clatrada (em grade) característica, daí o nome (do grego, “que tem grade”). Não ocorre no Brasil.
Distribuição geográfica geral
A família tem distribuição neotropical e caribenha exclusiva, com diversidade concentrada em três grandes polos:
Caribe e Flórida: habitat de Liguus (Cuba, Hispaniola, sul da Flórida) e várias espécies de Orthalicus (Cuba, Hispaniola, Porto Rico, Antilhas Menores). É a região com história mais longa de coleta científica e amadora — desde Linnaeus (1767) — e onde a pressão de extração e perda de habitat acumulou-se por séculos.
Andes setentrionais e centrais: centro de maior diversidade da família para a América do Sul, com sete gêneros (Sultana, Porphyrobaphe, Hemibulimus, Kara, Quechua, Scholvienia, Clathrorthalicus) concentrados em Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. As encostas andinas orientais, os flancos amazônicos do Equador e os Yungas peruano-bolivianos abrigam a maior parte das espécies.
Brasil: conforme Salvador et al. (2024), o componente brasileiro da família é representado por três gêneros e dezoito espécies nativas — Corona (7 espécies), Orthalicus (9 espécies) e Sultana (2 espécies). A distribuição abrange Mata Atlântica, Amazônia e áreas de transição com Caatinga e Cerrado. O Brasil representa, em termos de número de espécies, um dos polos importantes da diversidade da família na América do Sul, equilibrando-se com o polo andino.
América Central e México: distribuição ampla de Orthalicus e ocorrência de Corona, com várias espécies em Belize, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, frequentemente abaixo dos 1.500 m de altitude. Esta região representa também ponte biogeográfica importante entre as faunas caribenhas e sul-americanas.
Espécies brasileiras válidas
A composição abaixo segue estritamente Salvador et al. (2024) — checklist nacional consolidado dos gastrópodes terrestres do Brasil — e totaliza 18 espécies em 3 gêneros. Sinônimos relevantes são fornecidos entre colchetes.
Gênero Corona Albers, 1850 — 7 espécies
- Corona duckei Ihering, 1915
- Corona incisa (Hupé, 1857) [= Corona incisa machadoensis Strebel, 1909; Corona machadoensis Strebel, 1909]
- Corona loroisiana (Hupé, 1857)
- Corona perversa (Swainson, 1821) [= Orthalicus reginaeformis Strebel, 1909] — concha sinistral icônica; espécie-tipo do gênero.
- Corona regalis (Hupé, 1857)
- Corona regina (Bowdich, 1822) [= Achatina melastoma Swainson, 1823; Achatina melanostoma Spix, 1827]
- Corona ribeiroi Ihering, 1915
Gênero Orthalicus H. Beck, 1837 — 9 espécies
- Orthalicus bensoni (Reeve, 1849) [= O. isabellinus Martens, 1873]
- Orthalicus capax (Pilsbry, 1930)
- Orthalicus mars Pfeiffer, 1861
- Orthalicus phlogerus (d’Orbigny, 1835)
- Orthalicus prototypus Pilsbry, 1899
- Orthalicus pulchellus (Spix, 1827)
- Orthalicus undatus (Bruguière, 1789) [= Zebra selectus Strebel, 1909; Zebra zoniferus naesiotes Strebel, 1909]
- Orthalicus varius (Martens, 1873)
- Orthalicus zonatus (Strebel, 1909)
Gênero Sultana Shuttleworth, 1856 — 2 espécies
A lista acima totaliza 18 espécies em 3 gêneros e segue estritamente Salvador et al. (2024). O gênero Aposcutalus Dutra & Leme, 1985, com sua única espécie A. atlanticus, é tratado por Salvador et al. (2024) em Bulimulidae (subfamília Peltellinae) e não em Orthalicidae — esta posição é seguida nesta página, divergindo do tratamento do MolluscaBase. Espécies caribenhas, andinas, centro-americanas e mexicanas dos demais gêneros não estão neste catálogo brasileiro mas integram o conjunto neotropical da família. O gênero Orthalicus demanda revisão integrativa moderna, dada a parafilia conhecida do gênero como tradicionalmente concebido.
Casos especiais de interesse e conservação
A família Orthalicidae concentra alguns dos casos mais notáveis de fauna malacológica das Américas:
Liguus fasciatus — espetacular diversidade cromática: a “Florida tree snail” e suas congêneres cubanas apresentam mais de 70 formas cromáticas reconhecidas em Cuba e cerca de 58 na Flórida — caso clássico de polimorfismo extremo em gastrópodes. Várias dessas formas estão extintas em seus habitats nativos da Flórida e sobrevivem apenas em colônias transplantadas dentro do Everglades National Park. L. fasciatus é hoje espécie ameaçada protegida pela Florida Fish and Wildlife Conservation Commission.
Corona perversa — concha sinistral: única espécie da família com enrolamento sinistral (em sentido horário), caráter genético raro entre os gastrópodes terrestres. O gênero Corona deriva o nome do latim, “voltado”, referência direta ao enrolamento invertido em relação ao padrão dominante. Espécie de presença documentada no Brasil.
Sultana yatesi — entre os maiores caracóis terrestres das Américas: espécie peruana que pode alcançar mais de 100 mm de altura. Distribuição em altitudes andinas (1.000–2.000 m) nos departamentos de Amazonas e San Martín, Peru. Variedade cromática extraordinária faz dela objeto de coleção apreciado em shell shows internacionais. Não ocorre no Brasil — o componente brasileiro de Sultana é representado por S. meobambensis e S. sultana.
Orthalicus — diversidade brasileira da família: com 9 espécies registradas no Brasil por Salvador et al. (2024), o gênero-tipo concentra a maior parte da diversidade brasileira de Orthalicidae. Distribuição em Mata Atlântica, Amazônia e áreas de transição. Várias espécies foram descritas no início do século XX por Pilsbry, Strebel e Ihering com base em material coletado em expedições brasileiras pioneiras — material que constitui hoje patrimônio museológico de referência.
Necessidades de revisão sistemática: dois gêneros da família — particularmente Orthalicus e Porphyrobaphe — são reconhecidamente parafiléticos e demandam revisão genérica abrangente, conforme apontado por Salvador et al. (2023). Estudos moleculares dirigidos a esses gêneros, incluindo amostragem ampla das espécies brasileiras de Orthalicus, são prioridade para a sistemática atual da família.
Importância e conservação
Pressão histórica de coleta. A família Orthalicidae é uma das mais visadas pelo comércio histórico de conchas — particularmente Liguus e algumas Sultana e Porphyrobaphe. Diversidade cromática extraordinária, tamanho atrativo e padrões fasciados elaborados tornaram esses gastrópodes objeto de coleção desde o século XVIII. Muitas formas cromáticas de Liguus da Flórida estão extintas no habitat nativo; algumas espécies caribenhas e andinas estão em situação de conservação preocupante.
Endemismo elevado. Várias espécies da família apresentam distribuição extremamente restrita, frequentemente em ilhas (Cuba, Hispaniola, Stock Island), maciços montanhosos isolados (Andes, Sierra Nevada) ou fragmentos florestais isolados. A perda de habitat por desmatamento, expansão agrícola e desenvolvimento urbano é o principal vetor de pressão. Várias subespécies de Orthalicus reses (Stock Island, Flórida) e formas cromáticas de Liguus fasciatus estão protegidas pela legislação ambiental dos Estados Unidos.
Importância biogeográfica. Os Orthalicidae representam testemunho importante da paleobiogeografia neotropical. Análises recentes estimam que a divergência do clado coroa da família ocorreu há cerca de 50–60 milhões de anos, no Paleógeno inicial, alinhada com registros fósseis da Bacia de Itaboraí (Rio de Janeiro, Brasil). A família e seus parentes próximos espalharam-se pela América Central e Caribe muito antes da formação do Istmo do Panamá há 3 milhões de anos.
Importância ecológica. Como gastrópodes arborícolas em florestas tropicais, os Orthalicidae participam de processos ecológicos importantes — pastagem de fungos e líquens em troncos, decomposição inicial de matéria orgânica em casca, e fornecimento de presa para aves, répteis e mamíferos insetívoros do dossel. Liguus fasciatus, em particular, é importante componente das comunidades de hardwood hammocks da Flórida e Caribe; no Brasil, as espécies de Orthalicus e Corona compõem a fauna arbórea de fragmentos remanescentes da Mata Atlântica.
Notas sobre coleta e conservação
Os Orthalicidae são tipicamente encontrados em troncos, galhos e folhagem de florestas tropicais úmidas, frequentemente em alturas consideráveis (até dezenas de metros do solo no dossel) que dificultam a coleta direta. Conchas mortas são mais facilmente recuperadas em folhiço sob árvores ou após queda por ventos fortes ou poda natural de galhos. Em Liguus e Orthalicus da Flórida e Caribe, a coleta direcionada é hoje fortemente regulada — muitas espécies e subespécies estão protegidas legalmente.
Para coleta científica de espécies brasileiras (Orthalicus, Corona, Sultana), é necessária autorização SISBio do ICMBio. Áreas de Mata Atlântica em parques nacionais, reservas biológicas e áreas indígenas têm restrições específicas adicionais. Para coletas em outros países sul-americanos (Equador, Peru, Bolívia, Colômbia), é necessário consultar as autoridades nacionais correspondentes.
Para colecionadores, o cuidado com a procedência do material é hoje crucial — várias espécies da família estão sob restrições internacionais de comércio (CITES e legislações nacionais), e a aquisição deve seguir os princípios éticos e legais da coleta científica e do comércio sustentável de conchas.
Referências principais
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Salvador R. B., Silva F. S., Cavallari D. C., Köhler F., Slapcinsky J. & Breure A. S. H. 2023. — Molecular phylogeny of the Orthalicoidea land snails: further support and surprises. PLoS ONE 18(7): e0288533. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0288533 — filogenia molecular abrangente.
Breure A. S. H. & Mogollón Ávila V. 2016. — Synopsis of Central Andean Orthalicoid land snails (Gastropoda, Stylommatophora), excluding Bulimulidae. ZooKeys 588: 1–199. DOI: https://doi.org/10.3897/zookeys.588.7906 — sinopse regional de referência para Equador, Peru e Bolívia.
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Conquiliologistas do Brasil · Catálogo de famílias de moluscos sul-americanos
Última atualização: abril de 2026.