Projeto Orthalicoidea

GASTRÓPODES TERRESTRES

 

Esta seção reúne, em um só lugar, os gastrópodes terrestres da superfamília Orthalicoidea de todo o mundo. Começamos pela América do Sul, onde o grupo tem sua maior diversidade e onde o trabalho do CdB já cobria a quase totalidade das espécies. Agora estamos estendendo o catálogo às demais regiões em que esses animais ocorrem: o México, a América Central, as Antilhas e o sul dos Estados Unidos; a Austrália, a Nova Zelândia, a Nova Caledônia e as ilhas da Melanésia; e a África do Sul.

Orthalicoidea é um dos grupos de moluscos terrestres mais emblemáticos do Neotrópico, e boa parte do que se conhece sobre ele foi construída por pesquisadores que trabalham com a fauna brasileira e andina. Ao mesmo tempo, é um grupo com uma história evolutiva que atravessa oceanos: suas linhagens se separaram quando a América do Sul, a África, a Austrália e a Antártida ainda formavam o supercontinente Gondwana, e os parentes mais próximos de alguns gêneros sul-americanos vivem hoje do outro lado do Pacífico. Entender a fauna brasileira sem olhar para a Austrália ou para as Antilhas é contar só metade da história.


Orthalicoidea na América do Sul

América do Sul

América Central e Caribe

Bulimulidae Tryon, 1867

América do Norte

Bothriembryontidae Iredale, 1937

África

Bothriembryon

Austrália

Pacífico Sul


O que é a superfamília Orthalicoidea

 

São caracóis pulmonados, em geral de concha alta e cônica ou fusiforme, que vivem sobre a vegetação, na serrapilheira ou em rochas. Alguns são pequenos e discretos; outros, como Orthalicus, Sultana e Liguus, estão entre os caracóis arborícolas mais coloridos das Américas. O grupo inclui também formas de ilhas remotas, como os Naesiotus de Galápagos, os Placostylus da Nova Caledônia e da Nova Zelândia e os Bothriembryon do sudoeste australiano. Ao todo, a superfamília soma mais de duas mil espécies.

A classificação que adotamos é a do MolluscaBase, que reconhece atualmente doze famílias.

O quadro abaixo resume a classificação atual e onde cada família ocorre.

Família
Distribuição
FamíliaAmphibulimidae P. Fischer, 1873
DistribuiçãoNorte da América do Sul, em especial os tepuis venezuelanos e os Andes, e as Antilhas (Amphibulima, Gaeotis)
FamíliaAuriidae Salvador, La Pasta, F. S. Silva & Breure, 2026
DistribuiçãoEndêmica do Brasil (Auris)
FamíliaBothriembryontidae Iredale, 1937
DistribuiçãoChile e Argentina (Plectostylus, Discoleus); Austrália (Bothriembryon); Nova Zelândia, Nova Caledônia, Fiji, Ilhas Salomão e Lord Howe (Placostylus e gêneros próximos); África do Sul (Prestonella)
FamíliaBulimulidae Tryon, 1867
DistribuiçãoToda a América tropical e subtropical, da Patagônia ao sul dos Estados Unidos, incluindo as Antilhas e Galápagos. É a família mais numerosa da superfamília
FamíliaCyclodontinidae Salvador & Breure, 2023
DistribuiçãoBrasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina, com centro de diversidade nas regiões secas do Chaco, da Caatinga e do Cerrado (Cyclodontina, Clessinia, Bahiensis)
FamíliaKoridae Salvador, Cavallari & Breure, 2026
DistribuiçãoEndêmica do Brasil (Kora)
FamíliaMegaspiridae Pilsbry, 1904
DistribuiçãoBrasil. Hoje restrita a Megaspira e Callionepion
FamíliaOrphaicidae Salvador, Rosa, Cavallari & Breure, 2026
DistribuiçãoEndêmica do Brasil (Orphaicus, que recebeu as espécies brasileiras antes tratadas em Thaumastus)
FamíliaOrthalicidae E. von Martens, 1860
DistribuiçãoDo México e da Flórida (Liguus) à América do Sul, passando pela América Central e pelas Antilhas
FamíliaPaeniscutalidae Breure & Salvador, 2026
DistribuiçãoBrasil (Paeniscutalus). Nas análises moleculares, é a linhagem irmã de quase todo o restante da superfamília
FamíliaSimpulopsidae Schileyko, 1999
DistribuiçãoAmérica do Sul, sobretudo a Mata Atlântica e a Amazônia (Simpulopsis, Rhinus, Leiostracus)
FamíliaTomogeridae Jousseaume, 1877
DistribuiçãoEndêmica do Brasil (Tomigerus, Anostoma, Biotocus)

Oito das doze famílias são exclusivamente sul-americanas, e cinco delas são endêmicas do Brasil. 

 

Gondwana e a deriva dos continentes

Um caracol terrestre não atravessa um oceano. Quando encontramos parentes próximos em continentes separados por milhares de quilômetros de mar, a explicação mais simples é que seus ancestrais viviam numa terra contínua que depois se separou. É o caso de Orthalicoidea. A distribuição atual do grupo é um mapa do antigo supercontinente Gondwana, que reunia a América do Sul, a África, a Antártida, a Austrália, a Índia e a Nova Zelândia.

Gondwana começou a se fragmentar há cerca de 180 milhões de anos. A África e a América do Sul se afastaram primeiro, com a abertura do Atlântico Sul concluída há aproximadamente 100 milhões de anos. A Nova Zelândia e a Nova Caledônia se separaram da Austrália por volta de 80 milhões de anos atrás. A América do Sul, a Antártida e a Austrália permaneceram conectadas por muito mais tempo: a ponte pela Antártida, então coberta de florestas temperadas, só se rompeu de vez entre 50 e 35 milhões de anos atrás, quando o continente antártico se isolou e congelou.

A família Bothriembryontidae conserva exatamente esse desenho. Plectostylus e Discoleus vivem no Chile e na Argentina; Bothriembryon, no sudoeste da Austrália; Placostylus e seus parentes, na Nova Zelândia, na Nova Caledônia e nas ilhas da Melanésia; Prestonella, nas montanhas da África do Sul. Durante décadas esses gêneros foram tratados em famílias diferentes, e foi a análise molecular que os reuniu. O trabalho de Breure e Romero, publicado em 2012, mostrou que formam um único ramo e estimou que a linhagem já existia antes da separação final dos continentes austrais.

O quadro não é simples em todos os pontos. A Nova Caledônia e boa parte da Zelândia estiveram submersas por longos períodos, e há quem defenda que Placostylus chegou a algumas ilhas flutuando em vegetação arrastada pelo mar. Mas o padrão geral se mantém: a história de Orthalicoidea é a história das massas de terra do hemisfério sul, e por isso um catálogo do grupo precisa ser mundial para fazer sentido.

As famílias em cada região

O catálogo está dividido por grandes regiões geográficas. Abaixo, as famílias presentes em cada uma e seus gêneros mais característicos.

Região
Famílias e gêneros
RegiãoAmérica do Sul
Famílias e gênerosTodas as doze famílias. É o centro de diversidade da superfamília, com Bulimulidae (Bulimulus, Drymaeus, Naesiotus, Bostryx, Scutalus), Orthalicidae (Orthalicus, Sultana, Corona), Cyclodontinidae (Cyclodontina, Clessinia, Bahiensis), Simpulopsidae (Simpulopsis, Rhinus, Leiostracus), Amphibulimidae (Plekocheilus, Dryptus), Bothriembryontidae (Plectostylus, Discoleus) e as seis famílias exclusivamente brasileiras ou quase: Megaspiridae, Tomogeridae, Auriidae, Koridae, Orphaicidae e Paeniscutalidae. Inclui as ilhas oceânicas, como Galápagos e Juan Fernández
RegiãoAmérica Central e Caribe
Famílias e gênerosBulimulidae (Drymaeus, Bulimulus), Orthalicidae (Orthalicus, Liguus) e Amphibulimidae (Amphibulima, Gaeotis, Pellicula). Os Liguus de Cuba e Hispaniola e os Gaeotis semi-lesmas de Porto Rico estão entre os caracóis mais singulares das Antilhas
RegiãoAmérica do Norte
Famílias e gênerosBulimulidae (Rabdotus, Drymaeus) e Orthalicidae (Liguus, Orthalicus). A superfamília alcança seu limite setentrional no Texas, no Arizona e na Flórida, onde Liguus fasciatus é um ícone da fauna local
RegiãoAustrália
Famílias e gênerosBothriembryontidae (Bothriembryon). Dezenas de espécies concentradas no sudoeste do continente, muitas com distribuições minúsculas e várias conhecidas apenas de conchas subfósseis
RegiãoPacífico Sul
Famílias e gênerosBothriembryontidae (Placostylus e gêneros próximos, como Eumecostylus e Placocharis). Nova Zelândia, Nova Caledônia, Lord Howe, Fiji, Vanuatu e Ilhas Salomão. São caracóis grandes, de concha espessa, hoje ameaçados por ratos e pela perda de habitat
RegiãoÁfrica
Famílias e gênerosBothriembryontidae (Prestonella). Um único gênero, restrito às montanhas do leste da África do Sul, cuja posição em Orthalicoidea só foi confirmada por dados moleculares no fim dos anos 2000

Como a seção está organizada

Cada espécie tem uma ficha própria, no mesmo modelo que já usamos para a fauna brasileira e sul-americana: nome válido e autoria, sinônimos, localidade-tipo, material-tipo e a instituição que o guarda, distribuição conhecida, referência da descrição original e, sempre que possível, imagens da concha. As fichas estão agrupadas por região e, dentro de cada região, por família e gênero.

As espécies sul-americanas já estavam catalogadas e foram vinculadas a esta seção. As demais regiões estão sendo incorporadas aos poucos, família por família, e as páginas vão sendo publicadas à medida que ficam prontas. Uma ficha ainda ausente significa apenas que não chegamos lá.

Fontes

O ponto de partida é sempre a descrição original de cada espécie. A ela somamos os catálogos de tipos publicados nas últimas duas décadas para as grandes coleções europeias e americanas, as revisões filogenéticas que redesenharam as famílias a partir de 2010 (em especial Breure e Romero, 2012; Salvador e colaboradores, 2023; e Salvador e colaboradores, 2026) e os trabalhos regionais sobre a fauna australiana, neozelandesa e caribenha. Toda ficha indica de onde veio cada informação.

Como contribuir

Um catálogo desse tamanho nunca está terminado. Se você identificar um erro, conhecer um registro de distribuição que não consta da ficha, tiver fotografias de uma espécie ainda sem imagem ou acesso a uma publicação que não conseguimos consultar, escreva para nós.