Revisão taxonômica dos “caracóis-de-boné” brasileiros revela três espécies novas e revalida o gênero Navicula
Um extenso trabalho monográfico publicado em março de 2026 no Archiv für Molluskenkunde — uma das revistas mais tradicionais da malacologia mundial — apresenta a primeira revisão taxonômica completa do gênero Cochlorina Jan, 1830 (Gastropoda: Bulimulidae), um grupo de caramujos arbóreos endêmicos do Brasil conhecidos informalmente como “caracóis-de-boné” (cap-wearing snails) pela forma peculiar com que carregam a concha.
O estudo, de autoria de Ariel La Pasta, Michelle Klautau e Cleo D. C. Oliveira (Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ), redescreve todas as espécies do gênero com base em investigações morfológicas detalhadas que incluem microescultura e ultraestrutura da concha, rádula, mandíbula, sistema digestivo, reprodutivo e nervoso.
| Síntese do estudo | |||
| 3 espécies novas descritas |
1 gênero revalidado |
1 sinonímia proposta |
10 espécies reconhecidas (2 gêneros) |
Resultados taxonômicos
O gênero Cochlorina, que anteriormente contava com oito espécies, foi reorganizado e dividido em dois gêneros: Cochlorina (conchas ovado-cônicas) e Navicula Spix, 1827 (conchas cônicas, com abertura quase perpendicular ao eixo columelar). A separação é sustentada por diferenças na morfologia da concha e, especialmente, no sistema nervoso — com os gânglios posteriores muito menos fundidos em Navicula.
Novas espécies descritas
| Espécie | Localidade-tipo | Distribuição | Etimologia |
|---|---|---|---|
| Cochlorina andradeae | Carapebus, RJ | ES, RJ, SP | Homenagem a Luma Nogueira de Andrade, primeira mulher trans a obter doutorado e lecionar em universidade federal no Brasil. |
| Cochlorina mainesae | Pinheiros, ES | ES, MG | Homenagem a Nicole Maines, atriz e ativista americana pelos direitos trans. |
| Cochlorina parkis | Maricá, RJ | RJ | Homenagem a Mason Alexander Park, ator e cantor não binário; primeira espécie nomeada com sufixo inclusivo para pessoas não binárias. |
Outros atos nomenclaturais
Cochlorina lateritia é proposta como sinônimo júnior de Navicula navicula — a diferença entre as duas se limitava a uma variação de cor da concha, sem suporte anatômico.
Navicula Spix, 1827 é revalidado como gênero separado de Cochlorina, contendo quatro espécies: N. navicula, N. lateralis, N. involuta e N. uranops.
Classificação atualizada
| Cochlorina Jan, 1830 (6 espécies) | Navicula Spix, 1827 (4 espécies) |
|---|---|
| C. aurisleporis (Bruguière, 1792) — espécie-tipo | N. navicula (J. A. Wagner, 1827) — espécie-tipo |
| C. andradeae sp. nov. | N. lateralis (Menke, 1828) |
| C. aurismuris (S. Moricand, 1838) | N. involuta (E. von Martens, 1867) |
| C. intensior (Pilsbry, 1898) | N. uranops (Pilsbry, 1898) |
| C. mainesae sp. nov. | |
| C. parkis sp. nov. |
Distribuição geográfica
Todas as espécies de Cochlorina e Navicula são endêmicas do Brasil, ocorrendo predominantemente na Mata Atlântica do Sudeste (Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Minas Gerais), com algumas espécies alcançando a Bahia. São caramujos arbóreos, frequentemente encontrados em troncos e folhas em áreas de floresta.
O que distingue Cochlorina de Navicula?
| Característica | Cochlorina | Navicula |
|---|---|---|
| Forma da concha | Ovado-cônica | Cônica (mais achatada) |
| Ângulo da abertura | Quase paralela ao eixo columelar | Quase perpendicular ao eixo columelar |
| Região periumbilical | Convexa ou côncava, com listras coloridas | Plana |
| Inserção do lábio superior | Na última volta do corpo | Em voltas anteriores (às vezes na protoconcha) |
| Gânglios posteriores | Altamente fundidos | Majoritariamente discretos (menos fundidos) |
| Gânglios pedais | Não individualizados | Par independente |
Uma hipótese ecológica interessante: a forma cônica de Navicula faz com que o animal carregue a concha com o eixo columelar quase perpendicular ao substrato, ficando mais coberto pelo perístoma expandido quando em atividade — o que pode oferecer proteção contra a exposição solar.
Nomenclatura inclusiva: uma inovação no estudo
Representatividade na taxonomia — Este estudo se destaca também por um aspecto social relevante. Duas das três espécies novas foram nomeadas em homenagem a mulheres trans (C. andradeae e C. mainesae), e a terceira, C. parkis, homenageia uma pessoa não binária — sendo a primeira espécie animal nomeada com sufixo inclusivo para pessoas não binárias, seguindo uma proposta dos próprios autores publicada no Bulletin of Zoological Nomenclature (La Pasta & De Lima, 2024). A escolha reflete o compromisso de trazer visibilidade e representatividade a comunidades historicamente sub-representadas na ciência, usando a nomenclatura zoológica como ferramenta de reconhecimento.
Observações ecológicas
O trabalho discute também um comportamento incomum: a modelagem de pelotas fecais. Em C. aurisleporis, a massa fecal é direcionada do ânus para a sola do pé através de uma dobra do manto elongada, onde é moldada em pelotas. Os autores propõem que a presença de dobras do manto elongadas em gastrópodes terrestres pode ser um indicador de espécies que realizam esse comportamento. O comportamento foi observado também em espécies não relacionadas como Solaropsis brasiliana e Drymaeus papyraceus.
Perguntas Frequentes
O que são Cochlorina e Navicula?
São gêneros de caramujos terrestres arbóreos da família Bulimulidae, endêmicos do Brasil. Vivem em troncos e folhas na Mata Atlântica, especialmente no Sudeste e na Bahia. São informalmente chamados de “caracóis-de-boné” pela forma como carregam a concha.
Quantas espécies existem agora?
A revisão reconhece 10 espécies distribuídas em dois gêneros: Cochlorina (6 espécies) e Navicula (4 espécies). Três das espécies de Cochlorina são novas para a ciência.
Onde ocorrem essas espécies?
Todas são endêmicas do Brasil, com distribuição concentrada na Mata Atlântica dos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Por que Navicula foi separado de Cochlorina?
Diferenças na forma da concha (cônica vs. ovado-cônica), no ângulo da abertura e, sobretudo, no sistema nervoso (gânglios posteriores menos fundidos e gânglios pedais independentes em Navicula) sustentam a separação.
Qual a importância da nomenclatura inclusiva neste estudo?
Duas espécies homenageiam mulheres trans e uma homenageia uma pessoa não binária — sendo a primeira espécie animal a usar um sufixo de nome inclusivo para pessoas não binárias. A iniciativa dos autores amplia a representatividade na ciência e utiliza a nomenclatura zoológica como ferramenta de reconhecimento social.
O que são “caracóis-de-boné”?
O apelido cap-wearing snails refere-se ao modo peculiar como as espécies de Navicula carregam a concha — com o eixo columelar quase perpendicular ao corpo, ficando cobertas pela abertura expandida como se estivessem usando um boné. Esse posicionamento pode proteger o animal da exposição solar.
Foto: iNaturalist: Cochlorina aurisleporis Bruguiere, 1792; observação Rogério Dias
Referência
La Pasta, A., Klautau, M. & Oliveira, C. D. C. (2026). Taxonomic revision of the cap-wearing snails, Cochlorina Jan, 1830 (Gastropoda: Bulimulidae), with description of new taxa. Archiv für Molluskenkunde, 155(1): 1–50. DOI: 10.1127/arch.moll/155/001-050
© Conquiliologistas do Brasil — conchasbrasil.org.br
Publicado em abril de 2026.