Drymaeus ribeiroi

Ciência cidadã revela que caramujo arbóreo amazônico era na verdade uma espécie já conhecida

Um estudo publicado em janeiro de 2026 no Journal of Conchology demonstra que Drymaeus ribeiroi (Ihering, 1915) — caramujo arbóreo descrito a partir de material da Comissão Rondon no Mato Grosso — é sinônimo de Drymaeus nigrogularis (Dohrn, 1882), uma espécie amazônica pouco conhecida. A reavaliação foi motivada por dezenas de registros fotográficos na plataforma de ciência cidadã iNaturalist, que não apenas esclareceram a taxonomia como ampliaram significativamente a distribuição conhecida da espécie.

O trabalho é de autoria de Daniel C. Cavallari (USP Ribeirão Preto) e Rafael M. Rosa (Centro de Biologia Marinha da USP / Instituto de Biociências da USP).

O problema taxonômico

Drymaeus nigrogularis foi descrito em 1882 por Dohrn a partir de espécimes de Juruti, no Pará, e permaneceu praticamente esquecido na literatura — conhecido apenas da descrição original e de menções breves em catálogos. Em 1915, Hermann von Ihering descreveu uma subespécie, D. nigrogularis ribeiroi, com base em uma única concha vazia coletada no vale do Rio Jauru (Mato Grosso), durante a Comissão Rondon. O epíteto homenageia o herpetólogo brasileiro Alípio de Miranda-Ribeiro. Posteriormente, Salgado & Coelho (2003) elevaram ribeiroi a espécie plena, sem justificativa explícita.

Com mais de 300 espécies, o gênero Drymaeus tem sido historicamente tratado como um “gênero-lixeira” — com espécies descritas superficialmente e frequentemente relegadas ao esquecimento taxonômico.

O papel do iNaturalist

Ciência cidadã como motor de descobertas — Os autores identificaram inicialmente dezenas de registros no iNaturalist como D. ribeiroi. Ao examinar essas fotografias de indivíduos vivos — algo inédito para esta espécie, conhecida apenas de conchas vazias — e compará-las com material-tipo em museus, concluíram que os dois táxons são a mesma espécie. Os registros também revelaram uma característica nunca antes documentada: o pé e a cabeça distintamente amarelos, com potencial relevância filogenética.

No total, 88 registros do iNaturalist foram analisados. Em 55% deles, os animais foram encontrados ativos em troncos de árvores, frequentemente sobre ou próximo a líquens e musgos — que provavelmente fazem parte de sua dieta. Indivíduos foram observados tanto de dia quanto de noite, em ambientes florestais e urbanizados.

A sinonímia

A análise do material-tipo de ambas as espécies e dos novos registros demonstrou que não há diferenças significativas entre D. nigrogularis e D. ribeiroi. As variações em tamanho da concha e na intensidade da pigmentação parietal, apontadas por Ihering como diagnósticas, estão dentro da variação intraespecífica normal observada em outros congêneres.

 

Característica diagnóstica Observação
Pigmentação marrom-escura na região parietal do perístoma Presente de forma constante em todos os espécimes — considerada o caráter diagnóstico mais importante da espécie.
Faixa marrom-escura periumbilical Muito frequente, delimitando a área periumbilical.
Listras axiais marrons Altamente variáveis em número e intensidade — até entre indivíduos da mesma população. Alguns exemplares não as apresentam.
Pé e cabeça amarelos Característica revelada pelos registros do iNaturalist; nunca antes documentada. Compartilhada com poucas espécies da mesma região.

O nome válido, por prioridade, é Drymaeus nigrogularis (Dohrn, 1882). Os autores propõem o nome vernáculo “caracol-de-garganta-preta”, tradução do epíteto latino.

Distribuição ampliada

A distribuição conhecida de D. nigrogularis foi significativamente ampliada. A espécie era conhecida apenas da localidade-tipo (Juruti, PA) e de poucos registros de museu. Com os dados do iNaturalist, a área de ocorrência agora abrange as margens sul e leste da floresta amazônica, nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia, além de El Beni na Bolívia.

Alerta de conservação — Os autores destacam que a distribuição conhecida da espécie coincide com o chamado “arco do desmatamento” amazônico — a porção mais impactada da bacia, extensivamente afetada pelo desmatamento e pela mineração. A ocorrência em ambientes urbanizados pode indicar alguma resiliência, mas esse padrão não pode ser generalizado. Os autores recomendam avaliações urgentes do status de conservação da espécie.

Perguntas Frequentes

O que é Drymaeus nigrogularis?
É um caramujo arbóreo da família Bulimulidae, distribuído nas margens sul e leste da Amazônia brasileira. Seu nome, que significa “garganta negra”, refere-se à pigmentação marrom-escura na região parietal da abertura da concha.

Por que D. ribeiroi foi sinonimizado com D. nigrogularis?
As diferenças originalmente apontadas entre as duas espécies — tamanho da concha e intensidade da pigmentação parietal — estão dentro da variação intraespecífica normal. Além disso, ambas compartilham a pigmentação diagnóstica na região parietal do perístoma e são simpátricas.

Como o iNaturalist contribuiu para este estudo?
Registros fotográficos de cidadãos na plataforma iNaturalist forneceram dados de distribuição geográfica que ampliaram a área conhecida da espécie, as primeiras fotografias de indivíduos vivos (revelando o pé e a cabeça amarelos) e evidências de simpatria que sustentaram a sinonímia.

A espécie está ameaçada?
Ainda não foi formalmente avaliada, mas os autores expressam preocupação: sua distribuição coincide com o “arco do desmatamento” amazônico e os moluscos terrestres da Amazônia são excepcionalmente pouco conhecidos. Avaliações de status de conservação são urgentes.

O que é o gênero Drymaeus?
Com mais de 300 espécies, Drymaeus é um dos maiores gêneros de gastrópodes terrestres neotropicais. São caramujos tipicamente arbóreos, encontrados em troncos e folhas em florestas tropicais e subtropicais das Américas.

 

Foto: observação iNaturalist, crédito: Mauricio Uhle, 2017, Alta Floresta, Mato Grosso, Brasil

 

Referência

Cavallari, D. C. & Rosa, R. M. (2026). Drymaeus ribeiroi (Ihering, 1915) (Gastropoda: Bulimulidae) is a synonym of Drymaeus nigrogularis (Dohrn, 1882): reassessment of a poorly known species set in motion by in situ records. Journal of Conchology, 45(5): 717–724. DOI: 10.61733/jconch/4564


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Publicado em abril de 2026.

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