Habitats explorados por moluscos

Habitats explorados por moluscos

Texto original do Prof. Dr. Sérgio Vanin (2009), revisado, ampliado e ilustrado com exemplos brasileiros e sul-americanos pela equipe editorial da CdB (2026).

Poucos grupos animais exploram tantos ambientes diferentes quanto os moluscos. Do mangue à mata atlântica, do plâncton superficial às fossas oceânicas mais profundas, das neves permanentes dos Andes às fontes hidrotermais do fundo do oceano, representantes do filo Mollusca conseguiram se estabelecer em praticamente todos os tipos de habitat aquático e em boa parte dos terrestres. Essa flexibilidade ecológica é, em parte, consequência da impressionante variedade de planos corporais e estratégias alimentares que os moluscos desenvolveram ao longo de mais de 500 milhões de anos de evolução.

O presente texto apresenta uma classificação dos principais tipos de habitats utilizados por moluscos, com ênfase na diversidade observável no território brasileiro e sul-americano. A estrutura conceitual original é do Prof. Dr. Sérgio Vanin (1948–2022), entomólogo e naturalista do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, autor do texto-base publicado pela CdB em 2009. A presente versão preserva a organização original, corrige imprecisões, completa seções que estavam sintéticas, adiciona exemplos da fauna neotropical e inclui habitats que vêm ganhando importância na malacologia contemporânea.

A distribuição de moluscos é determinada pelo conjunto de variáveis físicas, químicas e biológicas de cada habitat: salinidade, temperatura, tipo de substrato, exposição à luz e às ondas, umidade, disponibilidade de alimento e presença de predadores. Conhecer o habitat é, em grande parte, conhecer a fauna.

1. Ambientes marinhos

O ambiente marinho abriga a maior diversidade de moluscos do planeta. No litoral brasileiro, cerca de dois terços das espécies malacológicas registradas são marinhas. As subdivisões abaixo correspondem aos principais tipos de habitats onde se concentra essa diversidade.

1.1. Baixio estuarino com água salobra

Área de baixios lodosos ou banhados rasos associada à desembocadura de rios, onde ocorre mistura de água doce e salgada. A salinidade nesses ambientes é altamente variável, tanto espacial quanto temporalmente, flutuando conforme as marés e o regime de chuvas. Essa variabilidade restringe a fauna residente a espécies eurialinas — tolerantes a amplo espectro salino. No Brasil, os estuários do rio Amazonas, da Baía de Todos-os-Santos e da Baía de Paranaguá são exemplos notáveis. Entre os moluscos típicos estão gastrópodes da família Potamididae (gêneros Cerithidea, Cerithideopsis) e bivalves como Mytella e Anomalocardia brasiliana — esta última um dos bivalves mais explorados pela pesca artesanal no Nordeste brasileiro.

1.2. Praias arenosas

A fauna pode variar consideravelmente conforme o grau de exposição da praia (expostas versus abrigadas) e o tamanho médio dos grãos de areia — características que determinam a estabilidade do substrato e a capacidade de retenção de água durante a maré baixa. Em praias abrigadas, a fauna de moluscos costuma ser mais rica em espécies que em praias expostas, embora tenda a ser menos diversa que em praias mistas (arenosas e rochosas combinadas). Os moluscos de praias arenosas são, em sua maioria, componentes da infauna — vivem enterrados no sedimento. Predominam bivalves (como os Donax, recentemente estudados em detalhe na costa de Sergipe com a descrição da nova espécie Donax trapesialis em 2025) e gastrópodes predadores ou necrófagos (Olividae, Nassariidae, Naticidae, entre outros).

1.3. Praias lodosas

Geralmente localizadas nas proximidades de grandes estuários ou no fundo de baías abrigadas. A fauna desses ambientes depende fortemente do regime de marés, que provoca alterações periódicas de salinidade e mudanças no substrato. O sedimento lodoso é frequentemente rico em matéria orgânica, o que sustenta populações densas de moluscos depositívoros — que se alimentam de detritos do sedimento. Bivalves da família Tellinidae e gastrópodes como Bulla striata são típicos desses ambientes no Brasil.

1.4. Praias rochosas

Os costões rochosos são provavelmente os ambientes malacológicos mais conhecidos e mais frequentemente visitados pelo observador casual no litoral brasileiro. Podem ser subdivididos conforme o grau de exposição às ondas:

Tipos de costões rochosos
1.4.1. Muito expostasPraias com perfil vertical ou muito acentuado, sujeitas a forte impacto de ondas e arrebentação intensa. Diversidade de algas geralmente baixa; moluscos presentes apresentam adaptações marcantes para fixação ao substrato (pés musculosos potentes em Patellidae e Fissurellidae; bisso em Mytilidae). No Brasil, encontrados em costões das ilhas oceânicas como Trindade e Fernando de Noronha.
1.4.2. Semi-expostasPerfil menos acentuado e maior diversidade de algas, embora a arrebentação ainda seja intensa. Em geral com grandes porções de rochas desprendidas, sob as quais se abrigam colônias de briozoários, anelídeos poliquetos e também quítons e pequenos gastrópodes.
1.4.3. AbrigadasPerfil pouco acentuado e bastante irregular, arrebentação fraca e poças de maré frequentes. A diversidade de algas e fauna é muito alta. No Brasil, tais habitats são típicos de baías protegidas como a Enseada da Armação (SC), a Baía da Ilha Grande (RJ) e parte do litoral do Espírito Santo. Ischnochiton striolatus (Polyplacophora) é um dos moluscos mais comumente encontrados sob pedras em costões abrigados brasileiros.

1.5. Poças de maré, com fundo rochoso

Quando a maré baixa, a água permanece retida em depressões no relevo irregular das praias rochosas. O tamanho e a profundidade dessas poças variam conforme o terreno e a amplitude da maré local. Outros fatores importantes na determinação da fauna incluem salinidade (que aumenta por evaporação em dias ensolarados ou diminui com chuva forte), temperatura (poças rasas podem aquecer rapidamente) e oxigenação. As poças de maré são microambientes de enorme interesse para observação malacológica por permitirem ver moluscos vivos em ambiente natural — lapas, quítons, pequenos gastrópodes, ermitões (abrigados em conchas de caramujos mortos) e ocasionalmente cefalópodes de pequeno porte.

1.6. Praias mistas

Praias que combinam características das rochosas abrigadas com variedade de substratos — principalmente cascalho, lodo e areia. Nessas praias está presente grande parte das espécies das rochosas semi-expostas e abrigadas, somada às espécies típicas das arenosas (em especial bivalves infáunais). A heterogeneidade do substrato tende a resultar em elevada diversidade específica, tornando essas praias pontos ideais para prospecção malacológica.

1.7. Recifes de coral

Formações biogênicas construídas por corais e outros organismos calcificadores em regiões tropicais e subtropicais. Os recifes estão entre os ecossistemas marinhos mais biodiversos do planeta, abrigando centenas de espécies de moluscos em suas estruturas complexas. No Brasil, a costa nordestina (especialmente entre Pernambuco, Alagoas e Bahia) abriga recifes biológicos e recifes areníticos, com malacofauna particularmente rica em Muricidae, Conidae, Cypraeidae, Columbellidae e pequenos bivalves cripticamente instalados em fendas e cavidades do coral. Os Abrolhos, em particular, constituem a maior estrutura recifal do Atlântico Sul e abrigam malacofauna significativa ainda parcialmente inventariada.

1.8. Manguezal

Ecossistema costeiro característico de regiões tropicais e subtropicais, dominado por árvores adaptadas à salinidade variável (no Brasil: Rhizophora mangle, Avicennia spp., Laguncularia racemosa). O manguezal abriga malacofauna distintiva, dividida conforme o estrato ocupado:

Zonação malacológica no manguezal
1.8.1. ArbóreoMoluscos que vivem sobre troncos, raízes aéreas e folhas, permanentemente fora da água. No Brasil, incluem o gastrópode Littoraria angulifera (muito comum em raízes de mangue-vermelho), pequenos gastrópodes Ellobiidae e ocasionalmente exemplares de Melampus.
1.8.2. Bentônico/intertidalMoluscos que vivem na parte exposta ou encoberta pela água conforme o fluxo das marés. Incluem bivalves infáunais como Mytella guyanensis (sururu) e Anomalocardia brasiliana (berbigão), além de gastrópodes predadores como Stramonita haemastoma e caramujos-de-mangue Potamididae.

1.9. Superfície do mar (neuston)

Moluscos que vivem flutuando na superfície oceânica, utilizando ou produzindo estruturas de flutuação. O exemplo clássico é o gênero Janthina — gastrópodes pelágicos que constroem jangadas de bolhas de muco para flutuar de cabeça para baixo na interface ar-água. Alimentam-se principalmente de hidrozoários como Velella e Physalia (caravela-portuguesa). Conchas de Janthina são encontradas encalhadas em praias brasileiras com certa frequência, especialmente após ventos fortes de sudeste. Outro grupo notável de moluscos pelágicos são os heterópodos (como Carinaria) e os pterópodes, gastrópodes de concha extremamente fina e delicada que vivem na coluna d’água aberta.

1.10. Em madeira submersa

Moluscos perfuradores de madeira, com destaque absoluto para a família Teredinidae — os bivalves popularmente conhecidos como turus ou “cupins-do-mar”. Espécies do gênero Teredo e gêneros afins apresentam morfologia extraordinariamente modificada: o corpo é extremamente alongado e vermiforme, com valvas minúsculas funcionando como “serras” na extremidade anterior para escavação ativa da madeira. Historicamente, causaram enormes prejuízos à navegação mundial até o advento dos cascos metálicos. No Brasil, são particularmente abundantes em estuários amazônicos, onde atacam canoas de madeira, pilares de pontes e pilotis de palafitas. Em águas mais profundas, ocorrem ainda os Xylophagaidae, bivalves perfuradores de madeira em mar profundo — grupo pouco conhecido e com importância ecológica crescente.

1.11. No interior de rochas

Moluscos perfuradores de substrato rochoso ou calcário. A família Pholadidae reúne bivalves com valvas especialmente adaptadas — ornamentadas com cristas rasposas que funcionam como limas para desgastar mecânica e quimicamente o substrato. Vivem semienterrados em orifícios escavados por eles próprios em rochas sedimentares macias, calcário e até corais mortos. Também perfuradoras de rocha são espécies de Mytilidae do gênero Lithophaga (“mexilhão de pedra”), que utilizam secreções ácidas para dissolver carbonato de cálcio.

1.12. Mar profundo e habitats quimiossintéticos

Um complemento importante ao texto original: a descoberta, a partir dos anos 1970, de ecossistemas baseados em quimiossíntese no mar profundo revolucionou nossa compreensão dos limites da vida. Nas fontes hidrotermais (encontradas em dorsais oceânicas) e nos cold seeps (áreas de infiltração de metano em margens continentais), bactérias quimiossintéticas sustentam cadeias alimentares inteiras, independentes de luz solar. Esses ambientes abrigam moluscos altamente especializados — mexilhões gigantes (Bathymodiolinae), bivalves Vesicomyidae e gastrópodes endêmicos. No Brasil, explorações na bacia de Santos e na foz do Amazonas começam a revelar fauna equivalente na margem continental brasileira, ainda em grande parte por descrever.

2. Ambientes de água doce

Os moluscos de água doce compreendem cerca de 5–7% da malacodiversidade brasileira, mas incluem grupos ecologicamente e economicamente importantes — desde hospedeiros intermediários de esquistossomose (Planorbidae do gênero Biomphalaria) até bivalves filtradores que funcionam como sentinelas ambientais (Hyriidae, Mycetopodidae). Os principais habitats são descritos a seguir, agora com o detalhamento que o texto original sintetizou.

2.1. Sobre vegetação aquática

Gastrópodes que vivem aderidos ou pastando sobre plantas aquáticas submersas (macrófitas) ou flutuantes. Incluem espécies de Planorbidae, Physidae, Ampullariidae e Lymnaeidae. As plantas oferecem ao mesmo tempo substrato de fixação, superfície para pastagem de biofilmes algais e refúgio contra predadores. No Brasil, espécies do gênero Pomacea (aruás ou caramujos-maçã) e Biomphalaria são frequentemente encontradas em macrófitas de várzeas, lagoas marginais e represas.

2.2. Sobre fundos arenosos ou enterrados em areia

Fundos de rios e lagos com sedimento predominantemente arenoso abrigam bivalves infáunais adaptados a esse substrato — com destaque para os Hyriidae (gêneros Diplodon, Castalia, Callonaia), família de bivalves sul-americanos tradicionalmente importantes na pesca artesanal em rios como o Paraná e o São Francisco. Pequenos bivalves Sphaeriidae e Corbiculidae (incluindo a invasora Corbicula fluminea) também são típicos desses fundos.

2.3. Sobre fundos lodosos ou enterrados em lodo

Ambientes com sedimento fino rico em matéria orgânica. Bivalves Mycetopodidae (gêneros Anodontites, Mycetopoda) são particularmente representativos nesse habitat em águas sul-americanas — com indivíduos que podem ultrapassar 20 cm de comprimento. São comuns em várzeas amazônicas, no Pantanal e em lagoas marginais do sistema Paraguai-Paraná. Gastrópodes dulcícolas como alguns Thiaridae também exploram esses fundos.

2.4. Em “aquários naturais” de bromélias ou ocos de árvores

Microhabitats aquáticos retidos em plantas epífitas (especialmente bromélias-tanque) ou em cavidades de troncos caídos e ocos de árvores vivas. Esses pequenos corpos d’água abrigam microfauna especializada, incluindo pequenos gastrópodes pulmonados e, ocasionalmente, formas dulcícolas peculiares adaptadas a ambientes extremamente reduzidos e isolados. No Brasil, são característicos da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica.

2.5. Sobre fundos rochosos

Em corredeiras, cachoeiras e leitos rochosos de rios, ocorrem gastrópodes com pés adesivos e formas achatadas adaptadas ao fluxo rápido de água, incluindo alguns Ancylidae (“lapinhas-de-água-doce”) e espécies de Thiaridae. Esses ambientes são ecologicamente importantes mas relativamente pouco estudados na malacofauna brasileira.

2.6. Habitats subterrâneos aquáticos (stygofauna)

Complemento ao texto original: águas subterrâneas em cavernas, aquíferos e sistemas cársticos abrigam uma malacofauna especializada — os moluscos troglóbios ou estigóbios, geralmente pequenos, despigmentados e cegos, com adaptações a ambientes de escuridão permanente. No Brasil, espécies estigóbias têm sido descritas em sistemas cársticos da Bahia, Minas Gerais e Goiás, e muitas outras aguardam descrição.

3. Ambientes terrestres

Os gastrópodes terrestres — pulmonados Stylommatophora e prosobrânquios Cyclophoroidea e Helicinoidea — exploram uma gama impressionante de ambientes terrestres no Brasil e na América do Sul, da zona costeira aos Andes. Cerca de 700 espécies nativas já foram descritas para o território brasileiro, e estima-se que um número substancial permaneça por descrever. Os principais habitats terrestres são apresentados a seguir.

3.1. Sobre vegetação — árvores, arbustos e plantas herbáceas

Gastrópodes arborícolas representam grande parcela da malacofauna terrestre neotropical. No Brasil, incluem particularmente os gêneros Drymaeus, Bulimulus, Leiostracus e Plekocheilus (Bulimulidae, Orthalicidae, Amphibulimidae, Simpulopsidae), que se alimentam de biofilmes, líquens e pequenas algas presentes na casca e nas folhas. Espécies de Drymaeus têm coloração frequentemente marcante, com listras e padrões que tornam os animais facilmente observáveis em troncos e folhas.

3.2. No solo — sob serapilheira, troncos caídos, rochas ou enterrados

A serapilheira (camada de folhas em decomposição sobre o solo das matas) abriga uma das comunidades malacológicas mais diversas e menos estudadas do Brasil. Micromoluscos de famílias como Streptaxidae, Scolodontidae, Subulinidae, Pupillidae e Helicodiscidae convivem aí com predadores de outros caracóis (como Scolodonta, cuja dieta carnívora foi confirmada recentemente através de registros no iNaturalist). Também vivem no solo os grandes Megalobulimus (Strophocheilidae) — gigantes da malacofauna neotropical, com alguns exemplares atingindo mais de 15 cm. Lesmas nativas (Veronicellidae) e introduzidas (Agriolimacidae, Limacidae) ocorrem em solos úmidos, frequentemente sob troncos caídos ou pedras.

3.3. Em cavernas terrestres (habitats cavernícolas)

Cavernas abrigam malacofauna terrestre especializada, frequentemente com espécies troglomórficas: pequenas, despigmentadas, com olhos reduzidos ou ausentes e umidade corporal aumentada. No Brasil, sistemas cársticos de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins abrigam várias espécies de gastrópodes cavernícolas ainda em estudo. São componentes importantes de ecossistemas subterrâneos legalmente protegidos.

3.4. Ambientes áridos e semiáridos

A Caatinga brasileira e outros ambientes secos da América do Sul abrigam fauna molusca adaptada à dessecação. Muitas espécies terrestres desses ambientes têm hábito de estivação — reduzem o metabolismo e selam a concha com um epifragma (camada de muco endurecido) durante os meses secos, permanecendo inativos por semanas ou meses. Alguns Megalobulimus, Odontostomidae e Bulimulidae são típicos dessa estratégia. Na Caatinga, também ocorrem os intrigantes Odontostomidae do gênero Anostoma — caracóis com abertura voltada para cima, único entre os moluscos terrestres brasileiros.

3.5. Altas montanhas e ambientes periglaciais

Complemento importante ao texto original: na América do Sul, a Cordilheira dos Andes abriga malacofauna especializada adaptada a altitudes elevadas, onde condições ambientais incluem pressão atmosférica reduzida, baixas temperaturas, radiação ultravioleta intensa e, em muitos locais, cobertura parcial de gelo e neve durante parte do ano. Essa fauna ocorre em biomas como o páramo andino (acima da linha de floresta, entre aproximadamente 3.000 e 4.800 m de altitude) e a puna (acima de 3.500 m, em regiões mais secas do sul andino).

Moluscos terrestres andinos incluem espécies dos gêneros Plekocheilus, Bostryx, Scutalus (Bulimulidae/Orthalicidae) e vários Systrophiidae, além de minúsculos Pupillidae e Punctidae que habitam musgos, líquens e solos gelados. Essas espécies desenvolveram adaptações fisiológicas notáveis: tolerância à hibernação prolongada em períodos de neve, resistência a ciclos de congelamento-descongelamento e estratégias reprodutivas concentradas em curtas janelas sazonais de condições favoráveis.

Regiões de alta montanha no Equador, Peru, Bolívia e norte do Chile abrigam endemismos altamente restritos — muitas espécies conhecidas de uma ou poucas localidades, frequentemente associadas a “ilhas ecológicas” isoladas no topo de montanhas. Esse isolamento produz cenários evolutivos comparáveis aos de ilhas oceânicas, com alta taxa de especiação e vulnerabilidade elevada a mudanças climáticas. O aquecimento global e o recuo acelerado das geleiras andinas representam ameaças particularmente agudas para essa malacofauna, ainda insuficientemente documentada.

No Brasil, embora não tenhamos altitudes comparáveis às andinas, os campos de altitude da Serra do Caparaó (ES/MG), do Itatiaia (RJ), da Serra dos Órgãos (RJ) e da Serra da Mantiqueira (MG/SP/RJ) também sustentam malacofauna com certo grau de isolamento altitudinal, embora muito menos estudada. Os campos rupestres da Cadeia do Espinhaço (MG/BA) e os tepuys do escudo das Guianas são outros ambientes brasileiros e sul-americanos altamente isolados ecologicamente, com potencial malacológico ainda pouco explorado.

3.6. Ambientes antropizados

Jardins urbanos, plantações, áreas de cultivo, construções humanas e vegetação de ruas constituem habitats dominados por espécies exóticas ou generalistas. No Brasil, Lissachatina fulica (caramujo-gigante-africano), Bradybaena similaris, Cornu aspersum, Limacus flavus e Ovachlamys fulgens predominam nesses ambientes — muitas delas consideradas espécies invasoras com impacto significativo sobre a fauna nativa. O monitoramento desses habitats antropizados é crescentemente importante para gestão de bioinvasões.

Classificação dos organismos marinhos pelo modo de vida

Planctônico: organismo que vive na coluna d’água, com capacidade natatória limitada, e se desloca predominantemente ao sabor das correntes. Entre moluscos, incluem-se a maioria das larvas (trocóforas e véligeres), os pterópodes (gastrópodes com “asas”) e os heterópodes.
Bentônico: organismo que vive no fundo, seja sobre o substrato (epifauna) ou enterrado nele (infauna). A maioria dos moluscos marinhos adultos pertence a essa categoria.
Nectônico: organismo que se locomove ativamente na coluna d’água, independente das correntes. Entre moluscos, o grupo mais característico são os cefalópodes (lulas, polvos, sepiae, nautiloides).
Neustônico: organismo que vive na interface ar-água, sobre a superfície do mar. Entre moluscos, o gênero Janthina é o exemplo clássico, flutuando com uma jangada de bolhas de muco autoproduzida.

Zonas marinhas verticais

O oceano é estruturado verticalmente em zonas com características físicas, químicas e biológicas distintas. A nomenclatura abaixo segue as convenções oceanográficas contemporâneas.

Zonação vertical dos ambientes marinhos
Zona supralitoralFaixa acima do nível máximo da maré alta, atingida apenas por respingos e sprays marinhos. Habitat de gastrópodes Littorinidae e Melarhaphe, com adaptações à exposição quase permanente ao ar.
Zona intertidal (entremarés)Faixa entre o nível máximo da maré alta e o mínimo da maré baixa — exposta ao ar periodicamente. Habitat de lapas, quítons, mexilhões e muitos outros moluscos.
Zona neríticaColuna d’água sobre a plataforma continental, entre o nível mais baixo da maré e a borda da plataforma (aproximadamente 200 m de profundidade). Alta produtividade, alta diversidade malacológica.
Zona epipelágicaCamada iluminada (fótica) do oceano aberto, da superfície até cerca de 200 m. Habitat de moluscos pelágicos como pterópodes e cefalópodes de superfície.
Zona mesopelágicaCamada de crepúsculo, entre 200 e 1.000 m. Luz solar insuficiente para fotossíntese. Habitat de lulas mesopelágicas e pequenos gastrópodes especializados.
Zona batial (talude continental)Região afótica (sem luz) de declive entre a borda da plataforma continental e a planície abissal, aproximadamente entre 200 e 3.000–4.000 m.
Zona abissalPlanícies de mar profundo, aproximadamente entre 3.000–4.000 e 6.000 m. Temperatura próxima de 2 °C, pressões elevadas, escuridão total. Malacofauna altamente especializada.
Zona hadalFossas oceânicas profundas, abaixo de 6.000 m até o ponto mais profundo conhecido (cerca de 11.000 m na Fossa das Marianas). Habitat de moluscos ultra-adaptados, recentemente documentados.

É importante mencionar que o recorde de profundidade para moluscos pertence a um poliplacóforo: Leptochiton vitjazae, coletado a 7.657 m. Bivalves e gastrópodes já foram registrados em profundidades superiores a 10.000 m em fossas oceânicas.

Perguntas Frequentes

Por que os moluscos exploram habitats tão diversos?

A radiação adaptativa do filo Mollusca é consequência de múltiplos fatores: origem evolutiva muito antiga (Cambriano, há mais de 500 milhões de anos); plano corporal básico flexível que permitiu modificações em muitas direções diferentes; diversidade de modos alimentares (herbívoros, filtradores, predadores, parasitos); e capacidade notável de adaptar o tipo e formato da concha a demandas ambientais específicas.

Onde há maior diversidade de moluscos no Brasil?

No ambiente marinho, a maior diversidade concentra-se em recifes e costões rochosos do Nordeste e Sudeste. Em ambiente terrestre, a Mata Atlântica e a Amazônia abrigam as comunidades mais diversas, com especial destaque para a serapilheira de floresta — habitat que concentra grande número de microgastrópodes. Em água doce, as bacias Paraguai-Paraná e Amazônica são as mais ricas.

Existem moluscos em ambientes extremos?

Sim, e são particularmente fascinantes. Moluscos foram documentados em fontes hidrotermais a mais de 350 °C de temperatura na água circundante, em fossas oceânicas sob pressão de mais de 1.000 atmosferas, em desertos onde a chuva cai apenas poucas vezes por década (com espécies capazes de estivar por anos), e nos Andes a mais de 4.500 m de altitude onde a neve cobre o solo por parte do ano.

Como os moluscos terrestres sobrevivem em altitudes com neve?

Moluscos andinos de alta montanha utilizam estratégias combinadas: hibernação prolongada sob pedras, serapilheira ou no solo congelado; produção de proteínas anticongelantes no hemolinfa; ciclos reprodutivos concentrados nos meses de verão; e muitos desenvolvem conchas mais espessas e compactas que retêm melhor a umidade interna. Algumas espécies conseguem tolerar congelamento parcial dos tecidos.

Qual o habitat mais ameaçado hoje na malacofauna brasileira?

Vários habitats estão sob pressão intensa. Os manguezais brasileiros perderam grande extensão por aterros e especulação imobiliária. Rios e várzeas tiveram sua malacofauna dulcícola afetada por represamento, poluição e introdução de espécies invasoras. Cavernas estão ameaçadas por mineração. E ambientes de alta montanha, como os campos de altitude da Mantiqueira e do Caparaó, sofrem os efeitos do aquecimento global, que desloca as faixas climáticas para cima e comprime os habitats disponíveis.

Existem moluscos nas águas profundas do litoral brasileiro?

Sim, e sua descoberta tem sido sistemática em expedições recentes nas bacias de Santos, Campos e Foz do Amazonas. Levantamentos recentes revelaram várias espécies novas em fundos batiais e abissais da margem continental brasileira. A fauna de mar profundo brasileira permanece, em grande parte, por descrever — representando uma das maiores lacunas do conhecimento malacológico nacional.

O que é estivação em moluscos?

Estivação é um estado de torpor em que o animal reduz drasticamente o metabolismo para resistir a períodos adversos — tipicamente secos e quentes, em contraste com a hibernação, que responde ao frio. Em gastrópodes terrestres, a estivação envolve selar a abertura da concha com uma camada de muco endurecido (epifragma), minimizando a perda de água corporal. Algumas espécies podem estivar por semanas, meses ou mesmo anos em ambientes áridos.

Glossário

Afótico: sem luz solar; ambiente de mar profundo abaixo dos 200 m.
Bentônico: relativo ao fundo aquático, onde o organismo vive em contato com o substrato.
Epifragma: camada selante de muco secretada por gastrópodes terrestres para fechar a abertura da concha durante a estivação.
Estivação: dormência metabólica em resposta a condições ambientais adversas (calor, seca).
Eurialino: organismo que tolera amplo espectro de salinidade.
Fótico: iluminado pela luz solar; camada superficial do oceano (0–200 m).
Infauna: organismos que vivem enterrados no sedimento.
Epifauna: organismos que vivem sobre a superfície do substrato.
Páramo: bioma andino de alta altitude (3.000–4.800 m), com vegetação herbácea, clima frio e úmido.
Puna: bioma andino de alta altitude mais seco que o páramo, comum no sul andino.
Quimiossíntese: produção de matéria orgânica a partir de energia química (não luminosa) — processo que sustenta ecossistemas em fontes hidrotermais.
Stygofauna/Estigofauna: comunidade biológica de águas subterrâneas.
Troglobio/Troglóbio: organismo obrigatoriamente cavernícola, com adaptações a escuridão total.

Referências e leituras recomendadas

Simone L. R. L. 2006. — Land and freshwater molluscs of Brazil. EGB/FAPESP, São Paulo, 390 p.

Ponder W. F., Lindberg D. R. & Ponder J. M. 2019. — Biology and Evolution of the Mollusca, Vol. 1. CRC Press, Florida.

Salvador R. B. 2019. — Land snail diversity in Brazil. Strombus 25: 10–20.

Machado F. M. et al. 2023. — How many species of Mollusca are there in Brazil? A collective taxonomic effort to reveal this still unknown diversity. Zoologia (Curitiba) 40: e23026. DOI: https://doi.org/10.1590/S1984-4689.v40.e23026

Rosa R. M., Cavallari D. C. & Salvador R. B. 2022. — iNaturalist as a tool in the study of tropical molluscs. PLoS ONE 17(5): e0268048. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0268048

Breure A. S. H. & Borrero F. J. — Diversos trabalhos sobre moluscos andinos da Colômbia, Equador e Peru (séries publicadas em Folia Malacologica, Zootaxa e Iberus).


Conquiliologistas do Brasil · Divulgação científica sobre moluscos brasileiros e sul-americanos
Texto original do Prof. Dr. Sérgio Vanin (2009), revisto e ampliado em 2026. In memoriam.

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