Inventário nacional revela crescimento superior a 200% no número de espécies não nativas de Moluscos em 15 anos

Inventário inédito revela explosão de moluscos exóticos no Brasil

Um estudo publicado em 2026 por Machado, F. M., Salvador, R. B., Miyahira, I. C. et al. apresenta o primeiro inventário nacional abrangente de moluscos não nativos no Brasil, revelando um crescimento alarmante no número de espécies introduzidas no país. De acordo com os autores, o total passou de 26 para 82 espécies não nativas em apenas 15 anos — um aumento superior a 200%.

O trabalho foi publicado na revista Biological Invasions e reúne especialistas de diversas instituições brasileiras e internacionais, consolidando dados taxonômicos, ecológicos e geográficos sobre invasões biológicas envolvendo moluscos em todos os ambientes — marinho, terrestre e de água doce.

📊 Números-chave do estudo

82 espécies não nativas registradas
13 espécies criptogênicas (origem geográfica incerta)
200%+ de aumento em 15 anos (de 26 para 82 espécies)

Quais moluscos estão incluídos?

O levantamento abrange principalmente representantes das classes Gastropoda e Bivalvia, mas inclui, pela primeira vez em um inventário nacional, registros de Polyplacophora (quítons) e Cephalopoda (cefalópodes).

Distribuição por ambiente

AmbienteEspécies não nativasExemplos notáveis
Terrestre33Achatina fulica (caramujo-gigante-africano), Deroceras laeve, Bradybaena similaris, Rumina decollata, Tanychlamys indica
Marinho e estuarino32Isognomon bicolor, Myoforceps aristatus, Crassostrea gigas, Perna perna
Água doce17Limnoperna fortunei (mexilhão-dourado), Corbicula fluminea, Melanoides tuberculata

Esse padrão reflete tanto a intensidade das atividades humanas — portos, comércio, aquarismo e transporte — quanto diferenças históricas no esforço de amostragem científica em cada ambiente.

Status de invasão e risco ambiental

Cada espécie foi classificada segundo seu estágio de introdução no Brasil. A categorização segue critérios internacionais de bioinvasão:

CategoriaNº de espéciesO que significa
Invasoras20Reproduzem-se ativamente e causam impactos documentados à biodiversidade nativa, à economia ou à saúde humana.
Estabelecidas20Possuem populações autossustentáveis no Brasil, mas sem impactos comprovados até o momento.
Detectadas18Registradas no país, mas sem evidência de populações reprodutivas estabelecidas.
Contidas12Presentes apenas em ambientes confinados (aquários, cultivos, estufas).
Dados insuficientes12Informações disponíveis não permitem classificação segura.
Criptogênicas13Origem geográfica incerta — pode ser nativa ou introduzida.

A presença crescente de espécies estabelecidas e invasoras representa uma ameaça direta à biodiversidade nativa, aos ecossistemas aquáticos e terrestres, e a atividades econômicas como aquicultura e abastecimento de água.

Espécies invasoras de maior impacto no Brasil

Entre as 82 espécies listadas, algumas se destacam pelos danos já documentados:

Achatina fulica Bowdich, 1822 — Caramujo-gigante-africano

Provavelmente a espécie invasora mais conhecida do Brasil. Originário da África Oriental, foi introduzido na década de 1980 como tentativa malsucedida de substituir o escargot europeu (Helix). Sem mercado, os animais foram soltos na natureza e se espalharam por todos os estados brasileiros. Alcança até 15 cm de comprimento, reproduz-se rapidamente (até 400 ovos por postura) e é potencial hospedeiro intermediário de parasitas como Angiostrongylus cantonensis, causador de meningoencefalite eosinofílica.

Limnoperna fortunei (Dunker, 1857) — Mexilhão-dourado

Bivalve de água doce originário do sudeste asiático, detectado na América do Sul em 1991 (no Rio da Prata) e no Brasil a partir de 1998. Forma incrustações maciças em tubulações de usinas hidrelétricas e estações de tratamento de água, causando prejuízos de milhões de reais. Avança pela bacia do Paraná e já atinge o Pantanal.

Corbicula fluminea (O. F. Müller, 1774) — Berbigão-asiático

Outro bivalve de água doce asiático, presente no Brasil desde os anos 1970. Forma populações densas em rios e reservatórios, alterando a composição do substrato e competindo com espécies nativas de bivalves como os Hyriidae e Mycetopodidae.

Melanoides tuberculata (O. F. Müller, 1774)

Gastrópode de água doce originário da África e Ásia, amplamente disseminado em rios e lagos do Nordeste e Sudeste do Brasil. Compete com espécies nativas e altera a comunidade de gastrópodes em mananciais.

Isognomon bicolor (C. B. Adams, 1845)

Bivalve marinho caribenho que colonizou costões rochosos do Sudeste e Sul do Brasil, competindo por espaço com espécies nativas como Brachidontes spp. e Crassostrea spp. na zona entremarés.

Onde estão concentrados os registros?

As regiões Sudeste e Sul do Brasil concentram a maior parte dos registros de espécies não nativas, com destaque para os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Esses estados possuem os maiores portos, a maior atividade aquícola e o maior número de pesquisadores em malacologia — o que explica tanto a intensidade das introduções quanto a maior capacidade de detecção.

A Região Norte apresenta lacunas significativas no mapeamento, atribuídas principalmente à falta de especialistas e de monitoramento sistemático. Isso não significa necessariamente que haja menos espécies exóticas nessa região — pode indicar apenas que elas ainda não foram detectadas.

🔬 Vias de introdução
As principais vias de entrada de moluscos exóticos no Brasil são: água de lastro de navios (espécies marinhas e de água doce), incrustação em cascos de embarcações (biofouling), aquarismo e aquicultura (espécies de água doce e terrestres), comércio de plantas ornamentais (espécies terrestres) e introdução intencional (como ocorreu com Achatina fulica).

Por que esse estudo é importante?

Invasões biológicas são reconhecidas globalmente como uma das principais causas de perda de biodiversidade — ao lado da destruição de habitat e das mudanças climáticas. No caso dos moluscos, as consequências incluem competição com espécies nativas, alteração de cadeias alimentares, obstrução de infraestrutura hidráulica, transmissão de parasitas e impactos econômicos significativos.

O artigo destaca a urgente necessidade de políticas públicas mais eficazes:

MedidaPor quê
Biossegurança portuáriaÁgua de lastro e biofouling são as principais portas de entrada para espécies marinhas e de água doce.
Detecção precoceQuanto mais cedo uma espécie exótica é detectada, maiores as chances de contenção. Depois de estabelecida, a erradicação é geralmente impossível.
Monitoramento de longo prazoAcompanhar a expansão de espécies já introduzidas permite prever impactos e planejar respostas.
Integração de bases de dadosConectar dados do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), GBIF e SiBBr para monitoramento integrado.
Regulação do aquarismoO comércio de espécies ornamentais é uma via importante de introdução de gastrópodes e bivalves de água doce.

Os autores alertam que prevenir novas introduções é muito mais eficiente e menos custoso do que tentar controlar espécies invasoras já estabelecidas.

Perguntas Frequentes

Quantas espécies de moluscos exóticos existem no Brasil?
Segundo o inventário de Machado et al. (2026), são 82 espécies não nativas e 13 espécies criptogênicas (de origem incerta), totalizando 95 espécies de moluscos introduzidos ou potencialmente introduzidos no país.

Qual é o molusco invasor mais problemático do Brasil?
Depende do ambiente. No meio terrestre, Achatina fulica (caramujo-gigante-africano) é o mais disseminado e preocupante por seu potencial como vetor de parasitas. Na água doce, Limnoperna fortunei (mexilhão-dourado) causa os maiores prejuízos econômicos por incrustação em infraestrutura hidráulica.

Como os moluscos exóticos chegam ao Brasil?
As principais vias são: água de lastro de navios, incrustação em cascos (biofouling), comércio de espécies para aquarismo e aquicultura, transporte acidental junto a plantas ornamentais, e introdução intencional (como ocorreu com Achatina fulica na década de 1980).

Moluscos exóticos representam risco à saúde humana?
Sim, em alguns casos. Achatina fulica pode ser hospedeiro intermediário do nematoide Angiostrongylus cantonensis, causador de meningoencefalite eosinofílica em humanos. O contato com o muco do animal ou a ingestão acidental de larvas (em alimentos contaminados) são as vias de transmissão.

O que é uma espécie criptogênica?
É uma espécie cuja origem geográfica não pode ser determinada com segurança — pode ser nativa ou ter sido introduzida em tempos antigos, antes dos registros científicos sistemáticos. Das 13 espécies criptogênicas listadas no estudo, algumas podem ser nativas do Brasil, enquanto outras podem ter sido introduzidas há séculos.

Como posso ajudar a detectar espécies invasoras?
Cidadãos podem registrar observações de moluscos em plataformas de ciência cidadã como o iNaturalist. Fotos georreferenciadas ajudam pesquisadores a monitorar a expansão de espécies exóticas. Se encontrar exemplares suspeitos de espécies não nativas — como caramujos-gigantes-africanos ou mexilhões-dourados —, entre em contato com o órgão ambiental do seu estado ou com instituições de pesquisa locais.

Referência

Machado, F. M., Salvador, R. B., Miyahira, I. C. et al. (2026). Non-native mollusc species in Brazil: a first national inventory and distributional overview. Biological Invasions, 28: 88. Disponível em: https://rdcu.be/fc2Qa

Foto de abertura: Tanychlamys indica (Godwin-Austen, 1883), observado por Jean Martins, Brasília-DF, 01/02/2026. Fonte: iNaturalist.


© Conquiliologistas do Brasil — conchasbrasil.org.br
Publicado em abril de 2026.

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