Nomeados pela repetição: tautônimos entre gastrópodes brasileiros
Quem percorre uma coleção de conchas tropicais cedo ou tarde repara num padrão curioso de etiquetas: Lambis lambis, Mitra mitra, Harpa harpa, Oliva oliva. O nome do gênero repetido no epíteto da espécie, como um eco. São os tautônimos: combinações binominais em que as duas palavras do nome científico coincidem -, e a Malacologia está entre os campos da zoologia em que mais aparecem. A figura é admitida pelo Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN), mas expressamente vedada pelo Código Botânico — o que explica sua presença habitual entre os animais e ausência absoluta entre plantas, fungos e algas.
A razão dessa abundância em conchas é histórica. Linnaeus e seus contemporâneos do século XVIII costumavam designar a espécie-tipo de um gênero usando, como epíteto, o próprio nome do gênero – uma forma de marcar qual espécie era o exemplar de referência. O hábito atravessou o século XIX e deixou uma herança de nomes duplicados que persiste até hoje: os tautônimos clássicos correspondem, em geral, à espécie historicamente mais antiga e emblemática de cada gênero. A esse contingente clássico vem se somando, em anos recentes, uma segunda fonte de tautônimos, bem menos conhecida, e que é o assunto principal deste texto: as revisões sistemáticas que, ao revalidar um gênero antigo ou erigir um novo a partir de um epíteto já existente, produzem combinações tautonímicas como subproduto. Foi o que ocorreu com três gastrópodes terrestres brasileiros entre 2025 e 2026.
Tautônimos clássicos em Mollusca
A maioria dos tautônimos malacológicos consagrados pela literatura origina-se do trabalho de Linnaeus (1758) e de seus contemporâneos. Entre os exemplos de maior visibilidade na conquiliologia:
Três tautônimos novos para a malacofauna brasileira (2025–2026)
Os trabalhos discutidos a seguir compartilham um padrão metodológico comum: revisão anatômica detalhada (rádula, cavidade palial, sistemas digestivo, nervoso e reprodutivo) somada à microestrutura conquiológica, levando ao reconhecimento de unidades genéricas previamente diluídas em conceitos amplos como Helicina Lamarck, 1799 e Cochlorina Jan, 1830.
1. Angulata angulata (G. B. Sowerby II, 1842)
Originalmente descrita como Helicina angulata, e mantida nesse gênero por mais de 180 anos, a espécie teve sua anatomia completa descrita por La Pasta (2025) em The Nautilus 139(4): 384–394. A proposição de Angulata como táxon de nível genérico foi baseada num conjunto consistente de caracteres: concha globosa fortemente carenada; abertura semi-elíptica pontiaguda ventralmente; opérculo levemente côncavo com cicatriz muscular sinusoidal; fórmula radular 28-4-1-4-28; ceco prostático acessório curto; bursa copulatrix grande, com pequeno saco provaginal e ducto longo do saco espermático acessório; gânglios dorsais grandes e marcadamente divididos; e estatocisto de inserção dorsal nos gânglios pedais.
No mesmo trabalho, La Pasta atribuiu ao gênero outras duas espécies brasileiras como combinações novas: Angulata variabilis (J. A. Wagner, 1827) e Angulata brasiliensis (J. E. Gray, 1824). A espécie-tipo é endêmica do Brasil, distribuindo-se por Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, em formações de Mata Atlântica e ambientes florestais associados.
2. Concentrica concentrica (L. Pfeiffer, 1849)
Descrita por Pfeiffer (1849) a partir de material proveniente da coleção de H. Cuming e tratada como subgênero Helicina (Concentrica) por A. J. Wagner em 1905, a espécie aguardava avaliação genérica definitiva há mais de um século. O trabalho de Roosen, Hortúa Herrera & Dorado (2025) revalidou Concentrica A. J. Wagner, 1905 ao nível de gênero, com base em caracteres da protoconcha, escultura periférica e morfologia do opérculo. A consequência nomenclatural foi a combinação tautonímica Concentrica concentrica.
A espécie ocorre em Mata Atlântica do Sudeste brasileiro e estende-se para o norte da América do Sul, alcançando regiões da Venezuela. É gastrópode terrestre arborícola de médio porte, frequente em troncos e folhagem de florestas úmidas.
3. Navicula navicula (J. A. Wagner, 1827)
A revisão monográfica de La Pasta, Klautau & Oliveira (2026), publicada no Archiv für Molluskenkunde 155(1): 1–50, reorganizou os “caracóis-de-boné” da Mata Atlântica e revalidou Navicula Spix, 1827 como gênero distinto de Cochlorina. A espécie-tipo, descrita inicialmente como Bulimus navicula, retorna agora à combinação tautonímica original.
A separação entre Cochlorina e Navicula baseia-se em diferenças conquiliológicas (concha cônica em Navicula, ovado-cônica em Cochlorina; abertura quase perpendicular ao eixo columelar em Navicula) e, sobretudo, no sistema nervoso — gânglios posteriores menos fundidos e gânglios pedais individualizados em Navicula. O trabalho ainda propôs Cochlorina lateritia Pilsbry, 1898 como sinônimo júnior de N. navicula, considerando que as diferenças entre ambas restringiam-se a variação cromática sem suporte anatômico. Navicula conta hoje com quatro espécies, todas endêmicas do Brasil: N. navicula, N. lateralis (Menke, 1828), N. involuta (E. von Martens, 1867) e N. uranops (Pilsbry, 1898).
Cabe observação nomenclatural pertinente: Navicula Spix, 1827 (Mollusca: Bulimulidae) é homônimo formal de Navicula Bory de Saint-Vincent, 1822 (Bacillariophyta), gênero de diatomáceas com mais de 10.000 nomes específicos publicados. A coexistência é tolerada pelos códigos atuais, que governam reinos diferentes — situação não rara em revalidações de gêneros zoológicos do início do século XIX.
Outros casos sul-americanos de interesse
O conjunto de tautônimos brasileiros não se limita às combinações de 2025–2026. Vários casos clássicos remontam à literatura malacológica europeia do segundo terço do século XIX, originados de uma prática então corrente — a de erigir gêneros novos a partir do epíteto da própria espécie-tipo, fixando o tipo por tautonímia absoluta no sentido do Art. 68.4 do ICZN. O exemplo mais antigo é também o mais conspícuo. Em 1837, no seu Index molluscorum praesentis aevi musei principis augustissimi Christiani Frederici — catálogo da coleção malacológica do príncipe Christian Frederik da Dinamarca —, o naturalista dinamarquês Hinrich Beck erigiu dois gêneros brasileiros pela mesma via: Gonyostomus (página 53), com Helix (Cochlogena) goniostoma A. Férussac, 1821 como espécie-tipo; e Odontostomus (página 54), com Bulimus odontostoma G. B. Sowerby I, 1824. As combinações resultantes — Gonyostomus goniostomus (A. Férussac, 1821) e Odontostomus odontostoma (G. B. Sowerby I, 1824) — permanecem válidas. Vale observação ortográfica: em Gonyostomus goniostomus a terminação do epíteto foi ajustada para concordar em gênero gramatical com o nome do gênero (a variação ortográfica y/i é tratada como equivalente pelo ICZN); em Odontostomus odontostoma o epíteto foi mantido na forma original, por ser interpretado como substantivo em aposição, o que dispensa concordância de gênero. Odontostomus odontostoma é, além disso, espécie-tipo do gênero-tipo da família Odontostomidae Pilsbry & Vanatta, 1898.
Uma década depois, o malacólogo britânico J. E. Gray adotou estratégia análoga ao compilar sua List of the genera of recent Mollusca, their synonyms and types (1847): erigiu Polygyratia com base no epíteto de Helix polygyrata Born, 1778, gerando a combinação Polygyratia polygyrata (Born, 1778) — sua espécie-tipo desde a descrição original. O gênero foi posteriormente realocado em Scolodontidae, em revisão da família conduzida por Salvador, Cavallari, Roosen e colaboradores em série de trabalhos publicados entre 2020 e 2025, e permanece monoespecífico. A espécie é endêmica de áreas de Mata Atlântica do sul da Bahia. Gray foi um dos malacólogos mais prolíficos do século XIX, responsável por boa parte da estrutura nomenclatural ainda em uso na malacologia contemporânea.
Em 1856, o naturalista britânico Robert James Shuttleworth — radicado em Berna, na Suíça — erigiu Sultana como subgênero de Orthalicus, designando Helix sultana Dillwyn, 1817 como espécie-tipo e produzindo, por tautonímia, a combinação Sultana sultana (Dillwyn, 1817). O táxon foi posteriormente elevado a gênero pleno e hoje integra Orthalicidae. Sultana sultana tem distribuição neotropical ampla — Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Panamá —, ocorrendo em florestas úmidas de baixa altitude. É, entre os tautônimos sul-americanos clássicos, o de distribuição geográfica mais extensa.
Três décadas mais tarde, o malacólogo francês Félix Jousseaume aplicou a mesma lógica em nota breve publicada no Bulletin de la Société Zoologique de France 2(3–4): 311–312, em 1877: estabeleceu Bahiensis como subgênero de Odontostomus H. Beck, 1837, designando Helix (Cochlogena) bahiensis S. Moricand, 1834 — descrita com base em material coletado por J. F. Blanchet em matas próximas a Salvador, na Bahia — como espécie-tipo, e produzindo a combinação tautonímica Bahiensis bahiensis (S. Moricand, 1834). Bahiensis foi posteriormente elevado a gênero pleno e hoje integra Cyclodontinidae Salvador & Breure, 2023, família erigida por análise filogenética como agrupamento monofilético previamente “órfão” em Odontostomidae. O gênero contém, além da espécie-tipo, várias outras espécies brasileiras e do norte da Argentina.
Outras combinações tautonímicas sul-americanas existem em literatura mais antiga, mas várias foram superadas por revisões posteriores. Em literatura malacológica brasileira contemporânea, o conjunto Angulata angulata, Bahiensis bahiensis, Concentrica concentrica, Gonyostomus goniostomus, Navicula navicula, Odontostomus odontostoma, Polygyratia polygyrata e Sultana sultana constitui o quadro principal de tautônimos efetivamente válidos para gastrópodes terrestres do país.
Padrão e implicação sistemática
A concentração das três combinações tautonímicas brasileiras recentes em Helicinidae e Bulimulidae não é fortuita. Ambos são grupos em que gêneros amplos do século XIX — em particular Helicina — agrupavam, por afinidade morfológica superficial, linhagens evolutivamente distintas, situação progressivamente desfeita à medida que técnicas anatômicas detalhadas, microestrutura conquiológica e, mais recentemente, dados moleculares são incorporados às descrições. Os tautônimos resultantes não são curiosidade nomenclatural: são marca textual da reorganização sistemática em curso.
Para quem consulta literatura, a implicação prática é direta: catálogos e listas faunísticas anteriores a 2025 reportarão essas espécies sob Helicina (casos 1 e 2) ou Cochlorina (caso 3); listas posteriores acompanharão as novas combinações. Os autores e datas das descrições originais permanecem entre parênteses, conforme convenção do ICZN, garantindo a rastreabilidade do nome.
Perguntas Frequentes
Tautônimos são nomes válidos?
Sim. O ICZN permite expressamente a formação de tautônimos. A vedação aplica-se apenas ao Código Botânico (ICN), que rege algas, fungos e plantas.
Os tautônimos brasileiros recentes referem-se a espécies novas?
Não. Em todos os três casos as espécies foram descritas no século XIX (1827, 1842, 1849). A novidade é a alocação genérica — fruto de revisão anatômica e revalidação ou criação de gênero.
Por que tantos tautônimos brasileiros surgem agora em Helicinidae?
Reflexo direto da reorganização sistemática da família, em curso há cerca de duas décadas. Helicina sensu lato concentrou historicamente uma diversidade conquiológica heterogênea, que vem sendo desfeita à medida que dados anatômicos e ultraestruturais permitem reconhecer linhagens antes obscuras. Angulata e Concentrica são duas dessas linhagens; outras virão.
É correto manter o autor entre parênteses nos tautônimos novos?
Sim, e é obrigatório pelo ICZN. Quando a espécie passa a integrar gênero diferente do que foi originalmente descrita, autor e ano vêm entre parênteses — exatamente o que ocorre em Angulata angulata (Sowerby II, 1842), Concentrica concentrica (Pfeiffer, 1849) e Navicula navicula (J. A. Wagner, 1827). Apenas quando a combinação genérica é a original a citação fica sem parênteses.
Referências
La Pasta A. 2025. Anatomy of an abundant and widespread but poorly known terrestrial snail from Brazil: Angulata angulata (G. B. Sowerby II, 1842) (Gastropoda: Helicinidae). The Nautilus 139(4): 384–394. Disponível em: https://conchasbrasil.org.br/anatomy-angulata-angulata-helicinidae/
La Pasta A., Klautau M. & Oliveira C. D. C. 2026. Taxonomic revision of the cap-wearing snails, Cochlorina Jan, 1830 (Gastropoda: Bulimulidae), with description of new taxa. Archiv für Molluskenkunde 155(1): 1–50. DOI: 10.1127/arch.moll/155/001-050
Beck H. 1837–1838. Index molluscorum praesentis aevi musei principis augustissimi Christiani Frederici. Hafniae [Copenhagen]: 124 pp. [pp. 1–100, 1837; pp. 101–124, 1838; Appendix: pp. 1–8, junho 1837]. Disponível em: https://biodiversitylibrary.org/page/32058074
Gray J. E. 1847. A list of the genera of recent Mollusca, their synonyms and types. Proceedings of the Zoological Society of London 15: 129–219 [November 1847]. Disponível em: http://biodiversitylibrary.org/page/12862913
Shuttleworth R. J. 1856. Diagnosen neuer Mollusken. Mittheilungen der naturforschenden Gesellschaft in Bern
Jousseaume F. 1877. Quelques faits intéressant la faune malacologique du Brésil. Bulletin de la Société Zoologique de France 2(3–4): 311–312. Disponível em: https://www.biodiversitylibrary.org/page/11361365
Roosen, M.T. & Dorado, C. (2025). Some Peruvian Helicinidae and Scolodontidae (Gastropoda) described by Pilsbry, Preston and Rolle. Basteria. 89(2): 320-330
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Richling I. & Glaubrecht M. 2008. The types of Neotropical Helicinidae (Mollusca, Gastropoda, Neritopsina) in the Malacological Collection of the Museum für Naturkunde Berlin: an annotated catalogue, with emphasis on Cuban land snails. Zoosystematics and Evolution 84(2): 265–310.
ICZN — International Commission on Zoological Nomenclature. 1999. International Code of Zoological Nomenclature, 4ª ed. Disponível em: https://www.iczn.org/the-code/
MolluscaBase eds. 2025–2026. MolluscaBase. Banco de dados online da nomenclatura malacológica mundial. Disponível em: https://www.molluscabase.org
Foto: Roosen, Salvador & Breure, 2025: Naturhistorisches Museum, Wien, Austria: SYNTYPE de Polygyratia polygyrata, NHMW-MO-14371
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